A Origem das Espécies
We have no more beginnings. {George Steiner}
26 novembro, 2007
22 novembro, 2007
||| Atrevimento.
O senhor ministro da Justiça acha que as declarações do Procurador-Geral se devem a desconhecimento ou a atrevimento. De facto, se são um atrevimento, então o senhor ministro sempre pode castigar o atrevido. Metê-lo na ordem. Ou ele não é um funcionário público?
Note-se que a frase «Ou ele não é um funcionário público?» é uma pergunta.
[FJV]
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17 novembro, 2007
||| O trabalho.
O livro de Manuel Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP (Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização, publicado pelo Círculo de Leitores) merece uma leitura. Ele compõe-se de duas partes, ironicamente: uma, dedicada ao trabalho; outra dedicada ao sindicalismo. A tese é inteligente, embora elaborada sem suficiente elegância teórica: os novos tempos desvalorizaram o papel do trabalho na sociedade. Ao premiar-se o capital de risco, o capital financeiro, a especulação, o trabalho deixou de ser um valor essencial para a criação da riqueza e para a vida em sociedade.
[FJV]
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28 outubro, 2007
||| Não esquecer. A estação das chuvas.
A pedido de amigos, e para não esquecermos, chamo de novo a atenção para estes extractos do livro Purga em Angola, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (edição Asa). Ver também artigo no JN desta segunda-feira.

«Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.»
[FJV]
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24 outubro, 2007
||| Referendo, qual referendo? Acordem.
De acordo com Pedro Sales: o povo pode não perceber o Tratado; até admito que se esteja nas tintas para o referendo; «mas percebe bem quando está a ser enganado».
[FJV]
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23 outubro, 2007
|||O Tratado é complicado de mais.
De novo, excelente crónica de Manuel António Pina no JN de hoje:
«Dir-me-ão que Sócrates, na campanha de 2005, nos garantiu que haveria, que repetiu o mesmo já este ano (como que por acaso no dia 25 de Abril), que CDS, PCP, BE e o presidente da República o disseram também, que o PSD ainda há um mês o dizia. Só que, depois destes anos todos, já sabemos quando os políticos mentem: é quando estão a mexer os lábios. Não gastaria, por isso, cera com tal defunto não fosse o argumento de Vital Moreira, porta-voz oficioso do Governo, contra o referendo: o Tratado é complicado de mais para a mente simples do "cidadão comum", se o "cidadão comum" tentar lê-lo não passa da segunda página. Acha Vital Moreira que os "cidadãos incomuns" que se sentam na AR lerão o Tratado de fio e pavio e só o votarão depois de o compreenderem. Ora só quem não conhece o espírito crítico e a independência e craveira intelectuais que vão pela AR é que não lhe dará razão.»
[FJV]
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22 outubro, 2007
||| Tratado Europeu. Não é Tratado Português.
Como diz o Álvaro, «Portugal, que no sistema de votos ponderados pesava 3,47%, passa a "valer" apenas 2,14%, enquanto a Alemanha, que tinha 8,4%, passará a pesar o dobro, com 16,75% do total dos Vinte e Sete». Isto são contas feitas.
[FJV]
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||| O PSD a 100%.
O PSD é de esquerda ou de direita? Depende. Manuel António Pina no JN.
[FJV]
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||| Escutas ilegais: não sei.
Ferreira Fernandes lembra o óbvio sobre as escutas telefónicas ilegais; mais uma razão para que o PGR deva esclarecer o assunto. É evidente que a PJ vai ter dificuldade em trabalhar o assunto, mas o aviso fica.
Também é evidente outra coisa: os condes, viscondes, marqueses e duques protestam contra a história do telefone; mas deviam protestar contra os casos não resolvidos.
Ler o post de Filipe Nunes Vicente: «No entanto, é frágil: o chefe está sob escuta, um autarca pode ser morto por causa de um caminho vicinal ( aqui há tempos um foi mesmo morto), a Guarda é recebida à pedrada e a tiro qual matilha de cães raivosos. Há uma dissonância evidente, as pessoas percebem isso. Quando um preso preventivo é posto em liberdade, os media uivam como lobos e o aparato é enorme; quando o Estado é enxovalhado num rincão longínquo, a notícia é de rodapé. O Estado parece reservar para si o monopólio da violência no sentido em que a exerce apenas quando e como quer.»
[FJV]
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21 outubro, 2007
||| A queda de um anjo.
Os «condes, viscondes, marqueses e duques» do Ministério Público e outras agremiações contestam os termos da entrevista de Pinto Monteiro ao Sol, e querem que ele se demita. Ontem, quando li a entrevista (de que gostei bastante), pensei que isto iria acontecer. Evidentemente que há aqui questões processuais; é nelas que «os condes, viscondes, marqueses e duques» se detêm (o telemóvel sob escuta, pouco mais). O resto é mesmo isso, boa entrevista.
Mas, evidentemente, para lá do ar escandalizado da reacção, há uma evidência: o Procurador-Geral da República não é Santana Lopes a almoçar em Canal Caveira. Agora, todos estamos com grande curiosidade acerca do seu telemóvel. Está sob escuta? Quem está a escutá-lo? É Nokia ou Siemens? É Vodafone, Tmn ou Optimus? Tem capas coloridas como as gravatas de Rodrigues Maximiano, ou é sóbrio como um juiz e nem câmara fotográfica possui? Que ruídos ouve o PGR quando fala ao telefone? Que campainha activou? Abrir a caixa e depois fechar a porta, não dá. Todos queremos saber, todos temos o direito de saber se alguém anda a escutar o nosso PGR. Também queríamos saber mais coisas (por exemplo: quem mais «ouve ruídos» no telemóvel ou no telefone do gabinete), mas ficamo-nos por aí. O que não obsta nada à existência de «condes, viscondes, marqueses e duques», estejam tranquilos.
[FJV]
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20 outubro, 2007
||| Não acreditem neles.
Sobre este post, o seguinte: eu sei bem que não vai haver referendo. Não é necessário, bem vistas as coisas. Não era necessário há uns meses; acredito na Europa a trinta velocidades, dispersa, reunida em torno de um tratado e de uma burocracia própria. Já não há volta a dar-lhe. O Tratado aprovado em Lisboa está assente sobre uma série de plataformas que também não foram referendadas e que talvez devessem ter sido referendadas; é difícil submeter este Tratado a referendo; o que está perdido, perdido está. Acham que os franceses eram mesmo, realmente, profundamente, contra a Constituição Europeia, ou apenas tinham medo dos canalizadores polacos e da ameaça de terem de trabalhar e reduzir o défice como os outros? Querem referendar o «porreiro, pá» de José Sócrates, ou querem discutir o Tratado? Está na cara.
Isso é uma cousa. Outra, diferente, é a paranóia festiva que tomou conta dos jornalistas de televisão, envoltos em nuvens de Murganheira Grande Reserva de 1985, e a consequente falta de informação e de discussão sobre o que perdemos e ganhamos com o Tratado. Está na cara dos tratantes.
[FJV]
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||| Não acredites neles.
Sabe-se o que eles diziam (sirvo-me de um post do J. V., no 31 da Armada). Os cavalheiros que mudaram de opinião sobre o referendo podiam aparecer, porreiro, pá, e dizer: «Sim, pensávamos isto, mas mudámos de opinião porque, porreiro, pá, a situação mudou e a democracia representativa basta, etc.».
Só que os cavalheiros não fazem nada disso. Os cavalheiros tergiversam. Os cavalheiros acham que os eleitores não leram, não ouviram, e, se leram e ouviram, sabem esquecer, a pedido. Assunto arrumado.
Agora, preciso é de saber se é verdade que «Portugal perde o acesso por rotatividade à Presidência da União»; que «Portugal aceita que lhe sejam impostas decisões em domínios alargados por dupla maioria, mesmo que se oponha veementemente a elas»; e, finalmente, que «Portugal perde o direito automático a um comissário na Comissão Europeia». É evidente que tudo isto estava previsto. Mas precisamos de saber se é assim e se isso é bom ou mau. Os cavalheiros têm de o dizer, mesmo que todos saibamos que a importância de Portugal não deve ser sobrevalorizada. Só para sabermos se o Tratado é um tratado bom para todos, se é só bom para nós, se é mau para nós, se é uma capitulação ou, vá lá saber-se, porreiro, pá, se é apenas um cartaz turístico. Sem ressentimentos.
[FJV]
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18 outubro, 2007
||| Ora aí está.
O Filipe explica um mistério que já me tinha alarmado: por que razão houve três votos nulos na eleição do novo líder da bancada parlamentar do PSD?
[FJV]
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||| Cecília.
Tens toda, toda, toda a razão. O João Gonçalves escreve: «[...] com Sarkozy chegou um novo tipo de primeira-dama. A que, já o sendo, se está nas tintas para continuar a ser e se divorcia. Cécilia ainda teve tempo para um gesto de diplomacia paralela bem sucedido antes de decidir ir à vida dela. Quantas pirosas e putativas candidatas a primeira-dama seriam capazes disto?»
Curioso como em certos blogs tratam o caso, mencionando o «corno enamorado», com aquele pequeno ar de «escândalo da República», aquele tremor no esófago ao mencionar que «s’il mène les affaires de la France comme il a mené ses affaires conjugales...» Escândalo? Dar a César o que é de César, mencionar a alcova conjugal apenas o estritamente necessário. O conceito de «primeira-dama» como um apêndice da figura do Estado é uma velharia anterior à Rainha Vitória (que era valente). É uma bela moça, essa Cécilia.
[FJV]
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||| Referendo.
Dado o teor desta notícia («Uma larga maioria dos eleitores dos cinco maiores países da União Europeia defende um referendo ao novo Tratado europeu», diz o Financial Times), a solução é óbvia: dissolver o povo e eleger outro.
[FJV]
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17 outubro, 2007
||| 27 de Maio de 1977. Estação das Chuvas. Correcção.
Mão amiga corrige um dos dados do livro Purga em Angola: o filho de Sita Valles foi entregue à família, criado por Francisca Van Dunem. Doutorou-se em economia em Inglaterra, trabalhou para o Banco Mundial em Maputo e está a fazer um pós-doutoramento na Dinamarca.
[FJV]
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||| 27 de Maio de 1977. Estação das Chuvas.
«Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.»
«Na margem sul do Tejo, faleceu recentemente um angolano, antigo membro do MPLA, a quem por alturas do 27 de Maio foi atribuída a tarefa de coveiro. Há quem se lembre de o ouvir contar que fora obrigado a sepultar pessoas vivas. Milhares de famílias de angolanos nunca puderam enterrar os seus mortos.»
«[...] Eram presos e enviados, sem qualquer processo, para campos de concentração. Muitos dos que morreram nem sequer sabiam quem era Nito Alves. E eram muitos os que tinham menos de 18 anos. Entre os detidos encontravam-se, até, soldados que não estavam em Angola no dia 27 de Maio.»«Houve pessoas que foram presas e até mortas, porque eram amigos ou parentes afastados. Pior, quando eram parentes próximos.»
«De modo que os soldados entravam nas casas perguntando onde estavam os intelectuais ou os estudantes. E acabaram por matar muitos.»
«A chamada Comissão das Lágrimas foi criada pelo Bureau Políticos do MPLA com o objectivo de seleccionar os depoimentos dos presos do 27 de Maio. No entanto, como veremos, alguns dos seus membros interrogaram ou provocaram os detidos. Dela fizeram parte: Iko Carreira, Henrique Santos (Onambwé), Ambrósio Lukoki, Costa Andrade (Ndunduma), Paulo Teixeira Jorge, Manuel Rui, Diógenes Boavida, Artur Carlos Pestana (Pepetela), José Mateus da Graça (Luandino Vieira), Mendes de Carvalho, Henrique Abranches, Eugenio Ferreira, Rui Mingas, Beto van Dunem, Cardoso de Matos, Paulo Pena e outros não identificados.»
«O inquiridor principal foi Artur Carlos Pestana (Pepetela). Num registo particularmente agressivo, queria saber quais eram as suas actividades, se e quando tivera reuniões, quem contactava, como funcionavam as ligações entre os sectores da educação, da saúde e da função pública. [...] Foi também interrogado por Manuel Rui. [...] Maria da Luz Veloso, na altura com 47 anos, também se lembra de ter comparecido nesta Comissão, onde foi interrogada por Pepetela e por Manuel Rui. [...] Como não fazia o que pretendiam, Manuel Rui não hesita em dizer: “A minha vontade era dar-lhe um par de bofetadas. Você não colabora. Vejo-me obrigado a entregá-la aos militares.” Os detidos passavam para os militares. E para as torturas.»
«Presos atirados pelas escadas e, no pátio, brutalmente espancados. Berravam e pediam clemência. Quase desfalecidos eram atirados para dentro de viaturas. Um mercenário norte-americano comentava: “Já vi muita coisa na minha vida. Mas nunca tinha visto tal coisa.”»

«João Jacob Caetano, o lendário Monstro Imortal, morreu com o garrote do nguelelo. Também consta que o tinham cegado. Foi interrogado por Pedro Tonha (Pedalé), o qual, possivelmente como prémio, subirá do 10º para 4º lugar na hierarquia do MPLA. No entanto, nem coragem tinha para lhe fazer as perguntas. Os algozes deixavam na sala um gravador, para depois reproduzirem o que dizia. E iam apertando o garrote. [...] Ao que parece, atiraram o corpo de um avião.»

«A indicação para o seu fuzilamento [Nito Alves] terá sido do presidente da República, embora na Fortaleza, onde estava, a ordem tenha sido dada por Iko Carreira, Henrique Santos (Onambwé) e Carlos Jorge. Nito não quis que lhe tapassem os olhos, pois queria ver os que o iam matar. O corpo foi varado por umas três dezenas de balas. E um dos chefes ainda lhe foi dar o tiro de misericórdia. O seu corpo foi atirado ao mar, com um peso.»
«Carlos Jorge, Pitoco e Eduardo Veloso chicoteia-no [a Costa Martins], batem-lhe com um pau com espigão de ferro, massacram-lhe as costas com correias de uma ventoinha de camião. Ao chicote chamavam Marx e, ao espigão, Lenine. Uma das vezes puseram-no numa sala, junto a uma máquina de choques eléctricos. Ainda cheirava a carne queimada.»


«Em meados de Junho [Sita Valles] é presa com o marido [José Van Dunem]. Entra no Ministério da Defesa de mão dada com José. [...] Terá ido para a Fortaleza de S. Miguel. Terá sido torturada e violada por elementos da DISA. [...] Várias fontes, entre as quais um responsável da DISA, declaram que se encontrava novamente grávida. Terão esperado que tivesse a criança para depois a fuzilar. O bebé nunca foi entregue à família. [...] Uma presa ouviu contar que, antes de a matarem, lhe deram um tiro em cada braço e em cada perna.» [Correcção aos autores, por mão amiga deste blog: o filho de Sita Valles foi entregue à família e foi criado por Francisca Van Dunem. Doutorou-se em economia em Inglaterra, trabalhou para o Banco Mundial em Maputo e está a fazer um pós-doutoramento na Dinamarca.]
«Os cálculos sobre o número de mortos variam. Um responsável da DISA, ouvido por nós, fala em 15 000. A Amnistia Internacional fez um levantamento e avançou com 20 000 a 40 000. Adolfo Maria, militante da Revolta Activa, e José Neves, um juiz militar, falam de 30 000 mortos. O jornal Folha 8 falou de 60 000. E a chamada Fundação 27 de Maio foi até aos 80 000. [...] Quedemo-nos pelos 30 000 mortos. Dez vezes mais mortos do que no Chile de Pinochet. Na própria família política. Sem qualquer julgamento. E em muitos casos sem qualquer relação com os acontecimentos.»
«Em Malanje foram fuziladas mais de mil pessoas. No Moxico, Huambo, Lobito, Benguela, Uíje e Ndatalando aconteceu o mesmo. No Bié mataram cerca de 300 pessoas. Em Luanda, os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses.»
«As cadeias eram sucessivamente cheias e sucessivamente esvaziadas, desaparecendo as pessoas. [...] Um grupo de militares foi morto na periferia de Luanda, junto a uma praia. Foram abatidos um a um, com tiros na cabeça. Os vivos que assistiam à cena pediam clemência. Os verdugos divertiam-se. E continuavam a matar, com um tiro na cabeça.»
«As forças de segurança prenderam muita gente jovem que, na manhã de 27 de Maio de 1977, andava nas ruas de Luanda. Centenas deles foram levados para um Centro de Instrução Revolucionária na Frente Leste e os dirigentes locais assassinaram-nos friamente.»
«Estudantes que estavam na União Soviética, na Bulgária, na Checoslováquia e noutros países do Leste, foram mandados regressar. No aeroporto de Luanda foram presos. E muitos foram decapitados, sem saberem a razão. [...] Nas Faculdades desapareceram cursos inteiros. No Lubango, dirigentes e quadros da juventude foram atados de pés e mãos e atirados do alto da Tundavala.»

«Onde param os fuzilados? Uns foram depositados em valas comuns. Outros lançados de avião ou de helicóptero para o mar ou para a mata. [...] Um ano depois do 27 de Maio, ainda se matava. Ademar Valles [irmão de Sita Valles] foi morto em Março de 1978.»
«O juiz José Neves conclui: “Foi um verdadeiro genocídio. Em Angola devem ter morrido umas 30 000 pessoas.”»
«A questão dos presos portugueses em Angola era tratada com a máxima moderação, ao contrário do que acontecia com na imprensa ocidental com casos de idêntica natureza. [...] A solidariedade com os presos políticos angolanos era, também, um tema de excepção na imprensa portuguesa, evitando-se qualquer crítica ao regime do MPLA. Apenas a poetisa Natália Correia, no Jornal Novo, se referira a um regime de sistemática repressão policial, falando mesmo no Gulag angolano.»
«Muitos dos “libertadores” sonhavam com a casa, o carro, os privilégios e as posições dos colonos. Conquistaram-nas e tornaram-se piores do que estes. Desculpar-se-ão com a guerra. Só que a guerra, que tantos matou e estropiou, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas.»
Dalila Cabrita Manteus e Álvaro Mateus, Purga em Angola. Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem e o 27 de Maio de 1977. Edições Asa.
Alguns links úteis:
Sobreviventes dos acontecimentos de 27 de Maio de 77 ainda procuram explicações. || O silêncio que grita. ||O dia mais negro. || Recordações de um desastre, por Ferreira Fernandes. || Associação 27 de Maio. || Carta de Carlos Pacheco a Pepetela.
[FJV]
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09 outubro, 2007
||| Averiguemos, pois.
Há mártires e pequenos candidatos a mártires. Gente que denuncia e gente que ronrona. Gente que acusa e gente que nomeia. Gente que se indigna e gente que é clara. Não sei em que categoria fica José Rodrigues dos Santos, mas acho que se JRS tem alguma coisa a dizer deve dizê-la. Estamos mortinhos por saber. Há dois tipos de inconfidência que prejudicam sempre toda e qualquer denúncia; primeiro, aquela de «você sabem do que é que eu estou a falar» (não sabemos); depois, a de «há árbitros em Canal Caveira» (com quem?). O assunto fica desacreditado. JRS não fica desacreditado jornalisticamente por ter escrito uma das piores cenas de sexo de toda a literatura portuguesa (ou da gastronomia, dado que se trata de uma sopa de peixe), embora ajude; mas, no essencial, que fique tudo esclarecido. Só que, para já, a novela não tem os tons trágicos que se anunciavam.
[FJV]
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||| Depende.
O caso da PSP da Covilhã está a meio. Evidentemente que cai mal a atitude precaucionista que marca a atitude da PSP local, que visitou o sindicato para saber se o pessoal ia, ou não, insultar o primeiro-ministro. Mesmo assim, enquanto se apuram resultados, é talvez legítimo pensar-se que se trata de rotina, «pura rotina», e de exagero da oposição. Só que, quem ouviu o secretário de Estado José Magalhães, esta manhã, na TSF, fica com dúvidas: houve uma subtil tentativa de desculpabilizar a acção da PSP com o argumento de «levar por ter cão, levar por não tê-lo». José Magalhães argumentou mais ou menos isto: então protestam por não haver cargas policiais em Silves e agora estão com paninhos quentes quando tentamos prevenir na Covilhã? Passando ao lado de uma outra tentativa de colar a «má educação» dos agitadores sindicais às actividades da extrema-direita («criaturas», assim lhe chamou) e à vandalização do cemitério judaico de Lisboa – que é politicamente absurda, José Magalhães justificou a operação com a necessidade de «prevenir», para depois não ter que tomar medidas «de outra intensidade». Ora, nada como a clareza.
Por exemplo: se a PSP tivesse feito o mesmo durante os governos de Cavaco – o que não diria José Magalhães? O que pensaria José Magalhães do bloqueio da Ponte 25 de Abril, se ele fosse secretário de Estado? Depende.
Ver este texto do FNV, no Mar Salgado.
[FJV]
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03 outubro, 2007
||| Bem feito.
Para os mortais, a política serve para ser vista, com os seus actores, as suas manigâncias, os seus truques e a sua beleza oculta. Às vezes, o seu sentido oculto. Há demasiadas coisas ocultas na política. No caso das eleições no PSD, a frase que mais soa entre o público é «Bem feito.» Há boas razões para dizer isso.
[FJV]
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