03 dezembro, 2007

||| Miguel Real.










Um fôlego único, capítulo a capítulo, pela voz de uma mulher que não perde a voz. Tal é o programa do romance de Miguel Real, O Último Minuto de S. (edição Quid Novi), uma encenação romanesca que tem como personagem central Snu Abecassis e, inevitavelmente, a sua relação com Francisco Sá Carneiro. Comovidíssima incursão de Miguel Real no discurso de uma mulher e, em tão poucas páginas, um enorme lamento por Portugal.
Aí está um livro que eu não me importava de pôr na primeira página de um suplemento de livros. Este, sim. Por exemplo.
[FJV]

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29 novembro, 2007

||| Intimidade dos sentidos (1)










Sou um grande leitor de pedaços de livros. Ontem, por exemplo, li o primeiro capítulo de Um Diário de Leituras, do Alberto Manguel, dedicado a A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Ficou-me esta frase do diário de Bioy:

«Sempre disse que escrevo para o leitor, mas o facto de continuar a escrever, numa altura em que os leitores (os leitores a sério, comprometidos) deixaram de existir, é uma prova irrefutável de que escrevo, muito simplesmente, para mim próprio.»

[MAV]

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||| Nas livrarias, acho eu.




















OS DIAS DE GLÓRIA
Envelheces tanto de cada vez que o dia termina
e olhas para trás. Tens medo do começo do fim,
das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo
do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos
que foram belos – e não são mais. Envelheces muito
quando o mundo contraria as pequenas coisas,
sentes esse cansaço, nada a fazer.
Mesmo da poesia, que iluminava o tempo, vais
colhendo apenas a amargura; os outros procuram nela
sinais de um destino, datas curiosas, zangas, ventanias,
armadilhas, mas tu sabes – e só tu sabes –
que a tua vida é a tua vida e que o poema
é empurrado por outro sopro, por um reflexo,
um medo brutal, pela memória dos que morreram
e levaram uma parte de ti, um pouco do que havia
de comum entre ti e a vida, esse desperdício – às vezes –,
esses momentos de glória em dias felizes.
Envelheces com os ossos que envelhecem. Envelheces
sem querer. Por ti serias eternamente jovem, adolescente,
e percorrerias as estradas das serras, as florestas,
não para viveres sempre, mas para estares vivo
mais um instante, porque o espectáculo é belo
uma vez por outra. Envelheces pouco a pouco,
porque as coisas não são o que foram nem são o que são.



GENEALOGIA, I
Os pais dos teus pais, os filhos dos teus filhos,
é isto uma família? O que separa o futuro daquele lugar
onde os teus mortos repousam? Avós adormeceram,
abandonados, em campas cobertas de terra e xisto.
Foram despedidas rápidas, comoventes algumas, enquanto
os teus desciam à terra e, cá fora, a vida recomeçava
com mais uma ausência. Ficavas para trás. Fiquei para trás
algumas vezes, observando como a tarde morria
depois dos funerais e eu tinha de seguir pela vida fora
acrescentando ausências sobre ausências. Eu sei,
observando-te pela janela (a mim próprio), que tens medo:
a solidão dos anos avança e ninguém tratará de ti,
ninguém te amparará para subires as escadas, ninguém
te levará de visita à terra dos teus maiores para que olhes o rio,
os barqueiros, as ruínas ou os muros das vinhas.
Rodeado de estranhos, tão funesta foi a tua vida,
tão plena, tão feliz, com momentos desprezados e perfeitos.



GENEALOGIA, II
Ouves os ruídos dos filhos, retido na cama. Uma gripe
não te afasta do mundo, mas mostra-te como és fraco;
eles continuam, alegres ou deixando a adolescência,
ou permanecendo crianças, rindo.
Tinhas pulmões de aço, fumadores, adultos,
e um gosto elegante pelo futuro. Fumas de pijama,
na varanda, enquanto os turistas de domingo vão à praia,
saudáveis e comentando as notícias do dia,
vestidos de branco no meio do Verão.
Borboletas nas roseiras, cadeiras na penumbra,
sentes que a morte avisa uma e outra vez,
soletrando o teu nome, aprendendo as tuas sílabas,
o teu caminho, para depois te encontrar mais depressa.
Ouves os teus filhos, comovido. Terás de deixar-lhes
uma herança para além dos livros,
das observações sobre meteorologia, das receitas
de família, das recordações de aldeia.



BORBOLETAS
Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas,
sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos
que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos
que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados

– mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem
se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer.
Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão
entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder
de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos

e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também;
e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago,
batendo asas contra todas as paredes do corpo – não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro

e para o passado. Românticos que se encontram quando nenhum
deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos
preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando
a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.












NEVA EM USHUAIA
Neva em Ushuaia por alguns instantes. São os primeiros
sinais do Outono, vindos de El Martial ao fim da tarde.
Os poetas locais compõem os versos adequados à circunstância
– o Diario del fin del Mundo publicará depois sonetos, odes,
vilancetes e até uma milonga irregular sobre a brancura
que emudece diante do canal. Para isso serve a poesia,
que é mais útil nas pequenas cidades: ilustra os museus, os jardins,
estátuas de almirantes, exploradores, viajantes da Antártida,

almocreves heróicos que atravessaram o estreito de Magalhães
para chegarem a Ushuaia. Neva em Ushuaia e comovo-me
nas ruas molhadas diante das livrarias e das lojas de tabacos,
e digo o nome dos meus filhos, Maria, Manuel, Francisco,
subo as escadarias, vejo a neve diante dos museus, das portas,
vejo os caminhantes que se abrigam nos cafés e olham
com surpresa a primeira neve do Outono. Mudo os meus versos
e empobreço-os, tocados pela primeira neve, a primeira neve

do Outono que cai sobre o fim do mundo, cai sobre a baía,
cai sobre o glaciar, cai sobre a mudez mais fria da pedra,
sobre as montanhas escuras, e nada resta do primeiro verso,
nada fica da primeira palavra, como uma ventania do sul.

Se me Comovesse o Amor
[Edição Quási. Colecção Uma Existência de Papel.]

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|||Vaidade, etc.







Isto é crítica e interpretação literária.
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28 novembro, 2007

||| Purga em Angola.
Ouça, aqui, a entrevista de Dalila Cabrita Mateus sobre o seu livro Purga em Angola.

Outras entrevistas recentes: Maria Filomena Mónica sobre Cesário Verde, e Pedro Aires Oliveira sobre o seu livro Os Despojos da Aliança.

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26 novembro, 2007

||| Livros no Brasil.
Ao contrário do que se quer fazer crer, quando isso é conveniente, não é verdade que todos editores brasileiros insistam em mudar a ortografia portuguesa nas edições daquele lado do Atlântico. Pode acontecer, simplesmente, que se proponha a modificação de alguns termos que soam estranhos ao leitor brasileiro, mas a regra seguida -- e na maior parte dos casos, rigorosamente seguida -- é a de manter a ortografia original.

P.S. - Pessoalmente, não tenho nada contra a alteração da ortografia.

[FJV]

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25 novembro, 2007

||| Bellini.










Os livros de cabeceira: o de Christopher Hitchens, Deus Não é Grande, quase concluído (para noites bissextas); o de Zadie Smith, Uma Questão de Beleza (três capítulos de fim de tarde, na varanda); o de Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (ainda não comecei); e os de Tony Belloto, que me ajudam a adormecer (também há o novo Harry Potter, mas guardo-o para a temporada idiota que se aproxima). Depois de Bellini e o Demônio, em que há um manuscrito perdido de Dashiell Hammett, estou agora com Bellini e os Espíritos, onde aparece um taxista paulistano chamado Elvis Presley da Silva.
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17 novembro, 2007

||| Sim.
No mais importante referendo deste fim de semana, votei sim. Comprei dois exemplares do novo Harry Potter e os Talismãs da Morte.
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15 novembro, 2007

||| Página 161, quinta frase.












Para responder ao repto da Carla (que até aceita que eu não cite livros técnicos, logo agora que tenho à frente as receitas de Augusto Gemelli, acabadinhas de sair) e do MacGuffin, aqui vai a quinta «frase completa» da página 161 do livro que estou a ler:

“Vender milhões de livros?”, perguntei. “Não, não. Viver num mundo regido por Deus.”
Trata-se de um diálogo entre Remo Bellini e Gala, em Bellini e o Demônio, de Tony Bellotto (edição Companhia das Letras). Descartável, hein?

[FJV]

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14 novembro, 2007

||| Página 161.
Quando chegar a casa já vou responder-te, Carla. E a ti também, MacGuffin.
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10 novembro, 2007

||| Mr. Mailer (1923-2007)









Ele era o modelo do escritor profissional, comprometido, cheio de vida e de opiniões. Os duros, como ele, não dançam; não voltarão a dançar.
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||| Pesadelos primários.
Na livraria de um aeroporto vejo um livrinho com o título Fernando Pessoa: Mensagens de Felicidade. Citações do poeta. Imagino uma colecção «O Essencial de Fernando Pessoa» com títulos úteis & instrutivos para todos: Saiba como Gerir uma Empresa com Fernando Pessoa, ou Sexo sem Tabus com Fernando Pessoa, ou Cozinha Saudável com Fernando Pessoa, ou Como Fazer Amigos e Ser Maravilhosa e Agradar ao seu Marido com Fernando Pessoa, ou Crédito Bancário mais Fácil com Fernando Pessoa, ou Descubra seus Pontos Fortes com Fernando Pessoa.
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||| O que poderia ter acontecido.








Machado de Assis escreveu a Eça de Queirós; este não lhe respondeu, porque não queria dar confiança ao mulato. A hipótese foi levantada pelo Fernando Venâncio há anos, numa crónica da Ler: o que teria acontecido se Eça e Machado se tivessem correspondido? Eça teria escrito aquela correspondência de Paris sobre o gesto dos estudantes de S. Paulo (comandados pelo tio de Oswald de Andrade, soube entretanto), que estenderam as suas capas para que Sarah Bernhard passasse sem sujar os sapatos?
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05 novembro, 2007

||| Notas & Apontamentos.
1. Eucanaã Ferraz publica muito em breve o seu novo livro de poemas, com o título Cinemateca, edição Companhia das Letras. Poemas narrativos, como filmes.

2. A Record publicará o aguardado livro de Reinaldo Azevedo, o novo ódio de estimação do petismo. O título terá a ver com o Brasil, mas o subtítulo incluirá a expressão A Sociedade das Ideias Mortas.

3. Manoel Costa Pinto inaugurou hoje o Letra Livre, programa de livros na televisão brasileira. Convidados da primeira emissão, Milton Hatoum e Glauco Mattoso. Na próxima emissão, Marcelo Rubens Paiva e Marçal Aquino. A que horas vai para o ar a emissão? Às 20h00.

[FJV]

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|| Ouro Preto, 6. Fórum das Letras.









1. Muito trabalho nos últimos dois dias e a actualização fica para trás; a actualização e os posts prometidos no último, mais abaixo. Mas houve novidades interessantes. A primeira foi a mesa onde participaram Miguel Gullander, Ondjaki e Patrícia Reis às 14h30. O tema: «Caminhos da experimentação na nova literatura lusófona».
Às 17h00, participei na minha mesa, com Marçal Aquino, Tony Bellotto e
Newton Cannito. Marçal acabou por ser o moderador mas, a meio, Malu Mader exigiu -- em nome de todos nós -- que ele participasse mais activamente. O tema: o romance policial. Será objecto de outro texto, um dia destes.
Fica a imagem da sessão de autógrafos a seguir ao debate.










[Eu, Tony Bellotto e Marçal Aquino]
Coisas que vale a pena saber: Tony (o Flamengo tinha acabado de perder 3-1 com o Cruzeiro) anda em digressão com a sua banda, Titãs, e fazem duo com Os Paralamas do Sucesso. Sairá um disco. Em 2008, ele irá a Portugal. Marçal Aquino também. Quem puder, veja o seu filme O Invasor.

2. Há uma razão para não trazer mais informações sobre a mesa de Ondjaki, Gullander e Patrícia Reis, além de ter sido logo antes daquela em que participei. Ontem a jornada começou pelas oito, para preparar a segunda parte da apresentação dos roteiros/guiões de cinema realizados no âmbito do Cineport.








Primeiro do dia: o de Ana Paula Maia (Brasil), A Guerra dos Bastardos, com roteiro de Pilar Fazito. Uma história muito, muito bem contada, a le
mbrar Almodovar, meio trágico, meio grotesco; um retrato brasileiro muito aplaudido.








Depois
, o de Ondjaki (Angola), Bom Dia, Camaradas, roteiro de João Toledo: excelentes momentos de comoção e de humor numa recordação da infância luandense vivida debaixo da guerra. O texto de Ondjaki favorece muito este género de adaptação, em que a voz off não soa mal, e os quadros mais «sentimentais» não são desperdício. Pelo contrário.

O trabalho de Joana Oliveira com Longe de Manaus deixou-me comovido: o livro fica no osso, certamente, mas a vida dos livros em guião de cinema é assim. Todo o guião é construído em redor da figura de Jaime Ramos, o detective, explorando os momentos de humor e desconcerto, os seus tiques, elegendo-o como tipo fundamental e mantendo três pólos de acção: Porto, São Paulo e Manaus, com Luanda na penumbra. Gostei bastante e o trabalho final com Marçal Aquino foi excelente.
Fica, naturalmente, a perplexidade de ver como
os outros, no Brasil, entenderam a figura de Jaime Ramos; nesse ponto fiquei ainda mais comovido durante a sessão da tarde, quando ouvi as observações de leitores sobre o inspector portuense. Já não é meu. Mas ver que os outros o reconstroem é também muito bom.









[Guiomar Grammont]

3. Em conversa com Guiomar Grammont (a organizadora do Fórum) Malu, Tony Bellotto e Eucanaã Ferraz, nasceu a ideia de imaginar um conjunto de histórias policiais passadas em Ouro Preto. Uma ideia a seguir.

















[Falke, eleito o melhor chopp artesanal da temporada, nascido em BH,
servido em abundância no restaurante Bené da Flauta; Inês Pedrosa e Connie Lopes, a editora da Língua Geral; os cheques-refeição providenciados pela organização e que são aceites nos restaurantes de Ouro Preto -- carinhosamente, são conhecidos por «Grammonts»; Connie Lopes e Miguel Gullander; os livreiros acompanham estes eventos no Brasil: o grande animador e responsável pela Livraria da Travessa; José Miguel Wisnik esteve no Fórum e fez um dos seus shows-aulas, «Nas Palavras das Canções», dedicando uma das canções a Inês Pedrosa -- se puderem ouvi-lo, não percam, é poesia pura.]

4. Amanhã seguem mais instantâneos. Mas pode fazer-se o anúncio: em Abril, de 10 a 13, o Fórum das Letras de Ouro Preto muda-se para Lisboa. O Fórum das Letras de Lisboa está já a ser preparado por Guiomar Grammont e Inês Pedrosa.

[FJV]

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03 novembro, 2007

||| Ouro Preto, 5. Fórum das Letras.










1. Manhã agitada e cheia de trabalho, sempre em bom ritmo. Primeira nota para a leitura e apresentação de roteiros/guiões de adaptações cinematográficas feita no âmbito do Laboratório de Roteirismo do Cineport, Festival de Cinema de Língua Portuguesa (na foto, o grupo de roteiristas, com Newton Cannito, o segundo na imagem), e que começou em Abril passado, em João Pessoa. Esta manhã, apresentação do roteiro do romance Perdido de Volta (Angola, Portugal), de Miguel Gullander, um trabalho muito bom de Ricardo Andrade. Um grupo de actores representou um fragmento do roteiro, muito David Lynch, um nadinha de David Cronenberg.








[Miguel Gullander, José Eduardo Agualusa e Christiane Tassis]

Depois, com roteiro de Sílvia Godinho, foi a vez de As Mulheres de Meu Pai (Angola), de José Eduardo Agualusa; vimos uma espécie de diaporama do road-movie, no mínimo comovente, com música fantástica de um quarteto de cordas do Soweto. É preciso notar queAs Mulheres de Meu Pai é, em si mesmo, um road-movie sobre a viagem de Laurentina em busca do seu pai africano e das suas mulheres, numa viagem que nos leva de Angola até à Ilha de Moçambique. Para quem não leu o livro, pode abrir o apetite com a pré-publicação do Capítulo 1, Parte I , Capítulo 1, Parte II , Capítulo 2, Parte I. Pode ainda ouvir a entrevista de José Eduardo Agualusa no Escrita em Dia (versão em wma, em mp3 ou em realplayer.) Como bónus, pelo meio há três curiosíssimas canções do soul angolano dos anos setenta: «Chofer de Praça», de Luiz Visconde, «Kiá Lumingo», de Urbano de Castro, e «Mona ku Jimbe Manheno», de David Zé.
Finalmente, a adaptação de Sob a Neblina, de Christianne Tassis (Brasil), por Marcus Nascimento. Vimos um diaporama muito Alain Resnais, que enquadrava perfeitamente a história do livro: um fotógrafo (Henrique) que pede a uma ex-namorada (Lúcia), jornalista, que escreva a sua biografia, uma vez que pode morrer a qualquer momento, vítima de um tumor. Amanhã continua a sessão, com mais três roteiros.

2. Televisões e entrevistas, aqui e ali. Notícias que saem nos jornais. Os autores portugueses e africanos presentes são bem destacados. Ontem, um fotógrafo convocou-nos para a Igreja do Rosário ao meio-dia, para um fotografia colectiva a ser publicada na primeira página do «Segundo Caderno» (o de letras & artes) do Estado de Minas. Ouvi a convocatória (sabem o que, à meia-noite e meia, significa voz empastelada, lenta, atrapalhada, numa terra onde se bebe um dos melhores chopes artesanais do Brasil, além das cachacinhas Germana e Salinas?) e comentei para o moçambicano Nelson Saúte: «Vais ver que ele não aparece.» E não. Foi visto há pouquinho, às cinco da tarde.









[Nelson Saúte e Eduardo Coelho]
3. O prefeito de Ouro Preto foi já secretário de Cultura do governo estadual de Minas Gerais, em BH. Tem vantagens inegáveis (fala escorreito, é sucinto e activo, simpático e conhece bons vinhos). Durante o jantar de ontem, leu um poema de Nelson Saúte sobre Ouro Preto, justamente.










4.
Na foto anterior Nelson (que lança aqui, por estes dias, Rio dos Bons Sinais) está ao lado de Eduardo Coelho, e isso merece explicação. Eduardo é o editor principal na editora Língua Geral e, se não estou em erro, um dos melhores editores no mundo da língua portuguesa. Significa isso que livro editado por ele é livro sem gralhas
, distracções ou falhas de maior, salvo as que são atribuídas ao autor. É muito cuidadoso, metódico e muito exigente; mas também é um homem divertido, bom de copo, bom de garfo, bom de ler (está a concluir uma tese sobre Manuel Bandeira), bom amigo. A Língua Geral publicou a versão brasileira do meu romance Lourenço Marques com o título A Luz do Índico, e posso dizer que beneficiou bastante o livro. Sem peneiras.










4.
Terminou há instantes a prim
eira mesa da tarde, que juntou José Luís Peixoto, Eucanaã Ferraz e um poeta de BH que vestia calças às riscas e que declarou estar em «transe erótico». Brilhante como sempre, Eucanaã; comovendo a assistência, Peixoto. Poesia às três da tarde com temperatura senegalesa parece absurdo, e é; mas os livros ficam.

5. História de almoço, brejeira e divertida, com Eucanaã e Eduardo Jardim, professor de literatura e filosofia, autor de vários livros sobre o modernismo brasileiro: quando Derrida veio ao Brasil, alguém queria colocar perguntas chocantes ao filósofo francês, digamos que perfeitamente desconstrucionistas. Do género: «O que pensa sobre a nossa mulher brasileira?
Qual é seu time de futebol? Já provou tutu de feijão?» Bom, a verdade é que isso aconteceu, mas com a apresentadora de futebol, Hebe Camargo, a quem coube entrevistar Jean Genet, imagine-se. E lá saiu a pergunta fatal: «O que pensa da mulher brasileira?» Genet balbuciou que não estava interessado. «Que gracinha», riu Hebe Camargo.
Pois isso é o que apetece fazer em certos debates sobre poesia, perguntando aos «poetas em transe»: «O que pensa de usar calças às riscas? Você é do Cruzeiro ou do Atlético Mineiro? Qual a sua opinião sobre o tucunaré?»








6. O angolano Ondjaki, que vem lançar no Brasil (edição Língua Geral)
Os da Minha Rua, anda em pesquisas por Ouro Preto. Barroco brasileiro, arquitectura, gastronomia, música? Não. Ondjaki anda a investigar chapéus. Chapéus. Depois dou notícias sobre o assunto. Chapéus.








[Ana Paula Maia, autora de A Guerra dos Bastardos, e Patrícia Reis]

7. Patrícia Reis lançará agora Morder o Coração no Brasil, antes de entregar o seu novo romance O Silêncio de Deus à Dom Quixote (quanto a este, já li, e é bom, uma história comovente que vale a pena reter). Foi sua uma das frases que marcou os debates: «Quando uma mulher escreve uma história de amor, diz-se que é uma história de mulherzinhas, cheia de corações e tal; quando é um homem, diz-se logo que é uma meditação sobre a condição humana.»

8. Chove em Ouro Preto. Finalmente, para felicidade de todos. Daqui a pouco, às 19h00, a francesa Laure Adler (cuja obra está a ser publicada pela Record) e o carioca Eduardo Jardim irão debater «O ensaio com recursos ficcionais». Mas a novidade é esta pouca chuva, que veio amenizar o clima e temperar as cores das árvores do outro lado da rua.

9. Próximo post com agenda: Elizabeth Bishop em Ouro Preto, Cláudio Manuel da Costa e Gonzaga em Vila Rica, Roberto Carlos, os debates sobre poesia e a música do Soweto String Quartet.
[FJV]

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||| Ouro Preto, 4. Fórum das Letras.








1.
Zuenir Ventura, com os seus 76 anos, ao subir ao palco do Fórum (onde ia para o debate sobre «Ficção, História, Jornalismo», com Ricardo Kotscho e Rui Tavares), para Liliane Dutra (como ele, mineira e carioca, ou mineiroca): «Lily, me chama de gostoso

2. Adriano Jordão (adido cultural da embaixada portuguesa em Brasília e, portanto, representante do Instituto Camões) indisposto e com ida ao hospital antes do jantar que ofereceu a escritores portugueses e africanos. Mas cavalheiro e excelente anfitrião, como sempre, saiu do hospital e da farmácia mas passou pelo restaurante Janela do Rosário (mesmo em frente dessa apoteose do barroco de Ouro Preto, que é a igreja de N.S. do Rosário), para tomar um chá de cidreira e dizer duas palavras a todos. De qualquer maneira, que pena Francisco Seixas da Costa não poder estar.

3. Sérgio Sant'Anna, o autor de O Voo da Madrugada (que ganhou o prémio Portugal Telecom no Brasil, edição portuguesa na Cotovia), é o mais desportivo de todos. A meio da manhã desce a Rua Direita, de bermuda e camiseta; fazem-se apostas para saber que jornal ele vai comprar: um diário generalista ou o Lance!, para não perder o contacto com o futebol.
Sérgio, 66 anos, também autor de Um Crime Delicado (prémio Jabuti), de O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (também prémio Jabuti) ou de Simulacros, foi uma das minhas grandes surpresas há três anos, quando o conheci. Cheguei a sua casa no Rio, para entrevistá-lo. Eram onze da manhã; ele recebe-me como um carioca legítimo: calção, havaiana e camiseta. Eu tinha acabado de ler O Voo da Madrugada e esperava um homem feito à semelhança dos seus textos, angustiados, densos, cheios de tensão e de negrume. Mas Sérgio estava preocupado com a duração da entrevista; é que, durante a tarde, ele queria ficar sentado na sala, rodeado de cerveja e salgadinhos, a ver os três jogos do Euro 2004. Fizemos a entrevista rapidinho; depois, discutimos o futebol de Scolari e a delícia que era ver jogar a Holanda ou a Croácia. Sim, a entrevista correu maravilhosamente, enquanto na cozinha alguém preparava os salgadinhos.







4.
José Luís Peixoto (foto tirada num aeroporto, recentemente) actua hoje às 14h30, com Eucanaã Ferraz, para falar de poesia «entre o sonho e a matemática». Hoje, é o único português a subir ao palco do Fórum; de manhã, daqui a pouco, às 09h00, apresentação dos roteiros/guiões de livros para adaptação ao cinema: As Mulheres de Meu Pai (Angola), de José Eduardo Agualusa; Perdido de Volta (Angola, Portugal), de Miguel Gullander; A Guerra dos Bastardos (Brasil), de Ana Paula Maia; e Longe de Manaus (Portugal). Quanto a Longe de Manaus, Marçal Aquino gostou da adaptação, o que é uma garantia. Vou ver, em cena, o trabalho de Joana Oliveira.

[FJV]

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02 novembro, 2007

||| Ouro Preto, 3. Fórum das Letras.









1. Ainda há instantes, José Eduardo Agualusa e Cristóvão Tezza no debate sobre «A alma exposta: literatura, entrega, confissão». Tezza é autor de O Filho Eterno (edição Record), o seu mais recente romance, que acabei de ler: uma história comovente e autobiográfica sobre um casal que tem um filho com síndrome de Down.

2. Joana Oliveira está «ali» reunida com Marçal Aquino, dando os últimos retoques na primeira proposta do guião/roteiro cinematográfico de Longe de Manaus. Ao longo de seis meses, depois de uma primeira sessão no Cineport de João Pessoa, Joana trabalhou o romance com a supervisão de Newton Cannito. A «primeira apresentação final» do guião é amanhã, pelas 9h00.

Aqui, entrevista ao Estado de São Paulo sobre a edição brasileira de Longe de Manaus.

3. Hoje de manhã, às 10h00, justamente, pudemos rever O Mistério da Estrada de Sintra, de Jorge Paixão da Costa, com o guião de Newton Cannito. Sala de madrugadores (o Cine Teatro Villa Rica é uma sala à antiga) e aplausos no fim.







4. Miguel Gullander é o autor de Balada do Marinheiro-de-Estrada (edição Cavalo de Ferro, em Portugal) e, agora, de Perdido de Volta (edição Língua Geral, no Brasil). Ele é filho de mãe sueca e de pai português (em vez de luso-sueco gostamos de tratá-lo como escandaluso), mas viveu sobretudo em Cabo Verde e Moçambique e, agora, desde há mais de um ano, em Benguela, Angola. É o nosso autor heavy metal; aqui, na Praça Tiradentes, no centro de Ouro Preto.

5. Agualusa queixa-se de ter sido acordado por um galo madrugador, ainda mais madrugador do que ele, que acorda pelas seis da manhã. Eu acordei com sinos, sinos, sinos. É o Dia de Finados em Ouro Preto e os primeiros sinos tocaram às seis e meia.












6. A melhor das surpresas pessoais foi o encontro com Tony Belloto, o autor de Bellini e a Esfinge, Bellini e o Demônio e de Bellini e os Espíritos (que estou a ler agora, juntamente com Cabeça a Prêmio, de Marçal Aquino), todos publicados pela Companhia das Letras. Na verdade, eu já gostava de Belloto há muito, pois ele é guitarrista dos Titãs, uma das bandas de que mais gostei (sim, pop-rock, seja o que for), e casado com Malu Mader, que é muito mais divertida do que nos papéis que interpreta. Tony é um excelente escritor também, e um criador de boas histórias policiais com o detective Remo Bellini, da Agência Lobo de Detetives. Ontem, boa conversa e a hipótese de edição dos seus livros em Portugal. Domingo, participarei com ele e com Marçal Aquino no debate sobre literatura policial, moderado pelo Newton Cannito.

7. Em Longe de Manaus uso uma canção dos Titãs, quando Daniela e Helena se encontram em São Paulo: «Eu preciso de você agora, por favor não vá embora, o tempo vai passando nos relógios, encontro seus beijos a toda hora.» É «Toda a Cor», a canção. Eu ouvi-a muito em 2004. Nessa altura escrevi A Noite o que é?.

8. Marçal é o autor de Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (edição portuguesa A Palavra, e brasileira na Companhia das Letras). Outros livros a não perder são Famílias Terrivelmente Felizes e O Amor e Outros Objetos Pontiagudos. Mas repare-se neste arranque de Cabeça a Prêmio (edição Cosac & Naify): «As coisas importantes ditas de um jeito prosaico. Brito estaa experimentando uma camisa no provador de uma butique masculina. Sempre pedia que Marlene escolhesse as roupas para ele. O rosto dela, só o rosto, surgiu entre as cortinas e ficou assistindo. Eles se olharam pelo espelho do provador. Me diga uma coisa, Brito: você é feliz? Ou infeliz? Ele colocou a camisa por dentro da calça. Viu que começava a criar barriga. As duas coisas, acho. Marlene degustou a resposta por um tempo. Daí, sorriu e disse, antes de seu rosto sumir entre as cortinas: Ficou boa a camisa. Brito e Marlene. Por que dava certo?»

9. Todas as tardes Luis Fernando Verissimo faz o mesmo passeio, junto da Praça Tiradentes. Como é que o mais bem-humorado dos escritores brasileiros raramente fala e raramente ri? É esse o segredo, precisamente. Conta-se que numa viagem de comboio até Cruz Alta, no planalto gaúcho, o pai, Érico Verissimo, lhe fez uma pergunta banal à saída de Porto Alegre. Ele teria respondido em Cruz Alta, horas depois.

10. Em Abril passado, em Salvador, Zuenir Ventura contou-me da sua nova reportagem, uma coisa totalmente inesperada: está a escrever sobre o funk carioca. Passou meses nas noites de funk, entre gangues. O livro vai sair. Mas em Abril de 2008 vai sair uma caixinha com a reedição de 1968, o Ano que Não Terminou, juntamente com um outro livrinho em que se fala do que se perdeu e não se perdeu dessa época. Sou de outra época, mas o entusiasmo de Zuenir é contagiante.
[FJV]

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01 novembro, 2007

||| Ouro Preto, 2. Fórum das Letras.







1. «O Verissimo já falou?» «Já. A conferência dele era às duas e meia.» «Não, não é esse. O Luis Fernando Verissimo, falo desse Verissimo.» «Já, já falou. Era às duas e meia.» «Você está chato hoje, hein? Eu estou falando do Luis Fernando Verissimo, pô.»

2. «Que debate era esse?» «Sobre literatura e já não sei bem, causas e o papel do escritor.» «Estou sabendo.» «Tu não foste?» «Estive bebendo, depois estive ocupado a ficar sóbrio, depois bebi uma cachacinha, uma Germana, e já passou, e agora estou preparado. Qual é o próximo debate?» «Hoje já não tem mais.» «Vai ser um combate.»

2. «É na Xavier da Veiga, de certeza que é na Xavier da Veiga. Descendo para aquela igreja, você está vendo?» «Não.» «Pô, mas você vai pelo cheiro. Tem aquela rua que vai dar ao centro, sabe?, aí volta à direita, desce, é a Xavier da Veiga, tem lá a cachaçaria. Um baita arquivo de cachaça, se quer saber.» [silêncio] «Já sei, mas não tem cachaçaria nenhuma lá.» «Não?» «Não. Lá é a biblioteca.» «Eu confundo tudo. Deixa.»
[FJV]

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||| Ouro Preto, 1.













O Fórum das Letras está bom. Tem muitos escritores. Alguns muito bons. Conferências a toda a hora. Mas tem esse problema: com tanta gente a falar uma pessoa não pode dormir em paz.
[FJV]

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