||| Retoma.
Depois de encerrada a Primeira Leitura, Reinaldo Azevedo tem um blog. A não perder.
A Origem das Espécies
We have no more beginnings. {George Steiner}
27 Junho, 2006
||| Terra Brasil.
Depois de violar quase todas as regras, o homem achou que tem de haver regras.
||| Identificação.
O branco da bandeira da França está a escurecer, diz Jean-Marie Le Pen: «Talvez o técnico tenha exagerado na proporção de jogadores de cor.»
26 Junho, 2006
||| Do Brasil para Scolari.
Pela boca pode morrer o peixe. Aliás, o Parreira. Mas Parreira tem mesmo aquela cara de peixe.
||| Feira do Livro,2.

A maior feira do livro «a céu aberto» de toda a América Latina é a Feira do Livro de Porto Alegre, realizada na Praça da Alfândega, rodeada da cidade por todos os lados -- cafés ao lado (o absolutamente in Bistrô do MARGS, por exemplo), restaurantes bem perto, com rede de transportes acessível, grande número de alfarrabistas (sebos) e de livrarias locais, uma das pracinhas totalmente ocupada por canais de televisão e de rádio e por árvores, a Feira de Porto Alegre merece ser vista. Se não como modelo, pelo menos como exemplo de mobilização. Ao lado estão o Memorial do Rio Grande do Sul, a Casa de Cultura Mário Quintana, a Casa de Cultura Erico Verissimo, o Santander Cultural, entre outros (sem falar dos restaurantes populares do Mercado) -- todos convocados para a Feira.
Ver, também, a Primavera dos Livros, a realizar no Rio e em São Paulo em Novembro.
||| Vender livros. Mais uma máquina.
O Bruno Sena Martins descobriu esta máquina de venda de livros em Paris. O Bruno ficou comovido «com a possibilidade de alguém comprar um livro de urgência, anoitecidas as livrarias».
Este senhor garante que comprou em Espanha, numa máquina destas, «o Vivir para contarla, de García Márquez, numa edição paperback bastante interessante por menos de €7. Na Bertrand em Portugal a única edição disponível está a €24,40...»
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Uma confidência: há alguns anos, para organizar um «evento» (que não chegou a realizar-se, de resto) foram sondadas algumas empresas de vending, como parecem chamar-se as máquinas; queríamos saber se era possível distribuir, pelas ruas de determinada cidade, algumas máquinas preparadas para vender livros em vez de coca cola ou twix. Todas as respostas foram negativas; uma das empresas respondeu, amavelmente (e creio que com pena, pelo que percebi), considerando que o livro não tinha «fiabilidade de peso e de substância» para poder estar disponível numa máquina dessas. Felizmente que já é possível.
||| Livros, feira do livro, etc.
Nem só coca cola se vende nas máquinas de rua. Veja-se este magnífico exemplo, sugerido pelo Nuno Seabra Lopes. Não, não é Paris, não é Londres, não é Genselkirchen. É em Santiago do Chile; uma máquina de vender livros («Retire su libro.»):
Entretanto, acompanhe-se o debate sobre a Feira do Livro que decorre no Extratexto.
25 Junho, 2006
|||Portugal-Holanda.
Há muito tempo que não me divertia tanto a ver futebol. E mais nada (por agora).
Adenda: Assim vale a pena, mesmo que os holandeses protestem o jogo pelo facto de Portugal ter jogado sempre com dois jogadores a mais – Scolari aos berros em Nuremberga e N. S. do Caravaggio a fazer figas em Farroupilha, lá na serra gaúcha. Portugal jogou com treze. Eu gostei: um jogo em que Petit é agredido constitui para mim novidade, e Simão a dar quatro voltas sobre a bola antes de marcar uma falta é um espectáculo para se ver – se estamos a ganhar.
||| Feira do Livro.
Muitos editores se lamentam de que a Feira do Livro correu mal – que foi a pior dos últimos trinta anos. O lamento é um exercício fácil, comovente e barato. Também se lamentam pelo absurdo e inexplicável facto de decorrerem muitos «eventos» durante o período da Feira, coisa que afastou leitores e desmotivou a imprensa, preocupada com outros acontecimentos (outro absurdo). Finalmente, lamentam-se pela quebra de vendas, o facto que realmente interessa. Nada de perder a esperança. Há soluções para tudo:
1) proibir a realização de campeonatos do mundo de futebol, bem como de festivais SuperBock/SuperRock ou Rock-in-Rio e seja lá o que for (ópera no S. Carlos, Sopranos na tv, festival de churros & farturas, centros comerciais, farmácias) que possa concorrer com a Feira do Livro, estando dessa maneira garantida a ida à Feira de cidadãos que não têm mais nada para fazer;
2) fazer com que a Entidade Reguladora da Comunicação Social possa punir devidamente os jornais e as televisões que não repitam o discurso sobre a beleza que é a Feira do Livro, sobre o encantamento provocado pelo ajuntamento de livros nas barraquinhas e estendais e, até, sobre a «poesia autêntica» que é a leitura e etc.;
3) exigir que o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica proceda a alterações no regime climático habitual durante a Feira, proibindo vagas de calor ou aparições despropositadas de chuva e, até, empurrando o início do Verão para um mês mais tarde -- nada que não se possa fazer;
4) se esta foi a pior feira em trinta anos, isso deve-se, evidentemente, aos compradores de livros, que devem ser admoestados pelas autoridades competentes, pois não devem frequentar as outras 231 feiras e operações de saldo de livros que acontecem ao longo do ano, nem, até, ir a livrarias comprar livros que, eventualmente, queiram comprar (uma vez que a Feira tem de manter o seu nível de negócio, coisa incompatível com mudanças de hábitos dos cidadãos);
5) censurar os textos de opinião de comentadores obnóxios que referem coisas desmobilizadoras e atrevidas como o facto de se publicarem cerca de vinte livros por dia, ou mais -- coisa que não deve ser tida em conta quando se fala na percentagem de livros não «despachados» durante a Feira.
Assim se consertará a Feira, e os editores não precisarão de pensar, imaginar ou organizar-se para que a Feira venha a ser diferente. Está salva a Feira.
||| Avatares.
A entrevista com Bruno Sena Martins a propósito do seu livro E se eu Fosse Cego? Narrativas Silenciadas da Deficiência (edição Afrontamento) pode ser escutada aqui – em formato wma, ou real player.
||| Revista de blogs. Jogar a feijões.
«Noto com agrado que em todos os desafios, incluindo naquele que a opôs a Angola, a selecção nacional fez questão de cometer mais faltas do que o seu adversário. Ora isso é mais importante do que o tempo de posse de bola, porque prova que não estamos ali para jogar a feijões.»
[João Pinto e Castro, no Blogoexisto.]
||| Ler:
Um excelente, mas céptico, prognóstico para o Verão, do João Gonçalves.
24 Junho, 2006
||| Martin Adler. {Actualizado}

Martin Adler tinha 47 anos e foi assassinado ontem, a tiro e pelas costas, na Somália, durante uma manifestação convocada pelos Tribunais Islâmicos. Martin estava em trabalho para o Channel Four inglês, ao serviço de quem já ganhara alguns prémios para reportagens efectuadas nos lugares mais perigosos do planeta -- da faixa de Gaza ao Afeganistão, da Somália e da Etiópia à Colômbia.
Martin escrevia também para a imprensa sueca e inglesa (Daily Telegraph e Independent) como free lancer. Acontece que não é um desconhecido para nós -- e especialmente para mim, que dirigi a Grande Reportagem. Martin era um excelente repórter que trabalhou para a Grande Reportagem no Ruanda, no Afeganistão, na Somália, na Colômbia, na Guatemala, no Sudão, no Paquistão, no Iraque ou na Tchechénia, por exemplo.


Várias capas da GR foram possíveis graças ao trabalho de Martin, que além de escrever muito bem e de ter o espírito de repórter permanentemente afinado, era também um fotógrafo de eleição (para quem tem colecções antigas da GR, vejam-se as fotos da Tchechénia ou do Afeganistão). Em 2002, Martin partiu para a Somália e para a Etiópia (a reportagem foi capa da GR), onde acompanhou grupos ligados à Al'Qaeda, negociantes de armas e de droga, bem como raptores de crianças destinadas a campos de treino terroristas no Sudão. Na Tchechénia escreveu, para a GR, alguns textos memoráveis sobre o assalto do exército russo a Grozny (onde ele prova a ligação entre as milícias muçulmanas e a Al'Qaeda). No Afeganistão «descobriu» o santuário dos taliban nas montanhas do Norte e as suas ligações ao exército regular que entretanto tinha sido formado. Essas reportagens foram prémio lá fora. Infelizmente, ignoradas aqui.
Nunca sabíamos onde estava Martin Adler. Os seus endereços de email (dois deles ainda guardo num caderno) bastavam-nos, ou um telefonema vindo de qualquer lugar -- da Suécia ou de Damasco, de Londres ou de Bogotá, de Bali ou de Cabul. As reportagens chegavam-nos no dia combinado, as fotos mostravam um mundo que não existia apenas na televisão. A sua fantástica humildade, só possível num grande repórter que fotografava, filmava e escrevia, era uma marca que notávamos sempre em Martin. Quando precisávamos de uma história (o fundamentalismo na Indonésia, as bombas de Bali, a morte em Grozny ou o rapto de crianças na Guatemala), Martin estava sempre disponível para a Grande Reportagem. Trabalhando para os gandes jornais ingleses e suecos, para a BBC ou para o Channel Four, Martin Adler nunca recusou escrever e fazer reportagens para nós. Algumas das grandes entrevistas com os líderes do terrorismo na Indonésia ou no Afeganistão, por exemplo, foram feitas por ele, e para a GR.
Morreu ontem, baleado pelas costas, aos quarenta e sete anos; negaram-lhe aquilo a que até então ele nunca fugiu: encarar o perigo de frente.
Onde quer que esteja o filho da puta que disparou aquelas balas, mais os filhos da puta dos Tribunais Islâmicos implicados na sua morte, gostava que houvesse justiça.
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Escreve o Pedro Almeida Vieira:
«Nunca conheci pessoalmente Martin Adler, mas desde que comecei a escrever na Grande Reportagem, no ano de 1998, habituei-me a acompanhar (respeitar com reverência) o seu excelente trabalho - mais, a sua coragem. Mas a palavra «coragem» tinha nele uma dupla, tripla expressão: porque os conflitos e as injustiças sobre as quais escrevia implicavam um verdadeiro risco de vida, pelas denúncias em si mesmas e por ele se expor fisicamente em locais perigosíssimos. Martin Adler era um «missionário do jornalismo»; e com ele (com os seus olhos e a sua pena) morreu, um pouco mais, a nossa (ténue) esperança de um Mundo são. A sua morte é a confirmação de que o Mundo é estúpido. E ele sabia disso; por isso, foi o jornalista que foi.»Escreve o José Moreno:
«Na notícia do DN de hoje, fui primeiro atraído pelo título - "Jornalista sueco abatido a tiro em Mogadíscio" -, depois pela imagem de um corpo no inerte no chão e em seguida pela legenda da foto. Só então percebi que era a primeira vez que via uma imagem - a última - de um jornalista e reportér fotográfico que li com deslumbramento durante anos a fio na Grande Reportagem. Foi um choque tremendo para mim, pequeno certamente por comparação com o que certamente sentiram aqueles que o conheciam e com ele trabalharam. Se alguma palavra puder chegar aos que lhe eram próximos, que saibam que Martin Adler era um homem admirado e que o seu nome ecoa na minha memória - um anónimo leitor - como um agente da minha maneira de ver o mundo e por isso mesmo um formador de carácter. Obrigado.»Escreve o Rui Branco:
«Ontem, numa esquina de Lisboa, levei com um murro no estômago. Ninguém me bateu, apenas me caiu em cima um bloco bem sólido de memória na cabeça. De vez em quando isso acontece-me, não sei porquê, não vislumbrei nenhum gatilho visual aparente, mas acontece. Lembrei-me do soldado desconhecido e de como é sobre ele que eu me ergo, de como somos todos soldados à força. Não sei se Martin Adler gostaria desta imagem, de soldado, provavelmente não. Mas refiro-o porque há um trilho, uma geneologia em que este jornalista tragicamente se insere, sem armas que matem mas morto por elas. Há batalhas importantes para esta guerra que ainda nos permite ressaltar murros no estômago imaginários (mas bem físicos, ao mesmo tempo). Haja muitos blocos de memória a cair-nos em cima da cabeça destes que nos farão sempre entesar a coluna e seguir em frente. Mas já bastam os exemplos, a memória do mundo tem um excesso de heróis.»
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FOTOGRAFIAS DE MARTIN ADLER DO ARQUIVO
DA GRANDE REPORTAGEM.






























Para ver mais trabalhos de Martin Adler, consultar o arquivo da Panos Pictures UK (dica do P.A. Vieira)
||| Discursos.
Este é o que agradece o que há a agradecer.
||| Irritações preferidas.
A palavra «estórias», por exemplo.
Hoje, um take da Lusa diz que eu «não sei quê, etc, blabla, estórias». Mentira. Eu disse «histórias». Assim: «Histórias.» Nunca «estórias». Gente sem noção.
22 Junho, 2006
||| Antes do Brasil-Japão.
Antes de se sentar diante da tv, ver a revolta na Bounty brasileira (atenção do Gonçalo Soares). Depois se verá.
||| Revista de blogs. Detox Sexual.
«É oficial. Esta princesa vai entrar em detox sexual. Depois de grandes festividades multiculturais, onde aprendi rituais oriundos, nomedamente, do sul da Europa, numa concentração de conhecimentos que me habilitam a redigir uma tese de Doutoramento em Sociologia, tal foi a "socialização", vou entrar em retiro e purificar o corpo e o espírito do pecado da carne, ou seja, o da lúxuria.»
[No Cenas de Gaja.]
||| Revista de blogs. O que é a plenitude do blogger.
«Está-se tão bem em Madison, Wisconsin, que prefiro aproveitar bem este tempo e isso é um bocado incompatível com escrever aqui no blogue.»
[André Belo, no Garedelest.]
||| Desilusões da política?
Nem tanto. Paulo Gorjão dá um exemplo prático acerca da obrigatoriedade do alinhamento: «Num país pouco habituado ao debate e em que as críticas, quando existem, assumem muitas vezes um tom exclusivamente pessoal, a crítica a uma iniciativa ou a uma ideia constitui a excepção e não a regra. A crítica é um acto "anormal". Quem vota num determinado político ou partido tem de concordar acefalamente com tudo. Ou concorda com tudo, ou não vota.»
|||Clássicos.
O francesismo. Ler o post de J. P. G..
21 Junho, 2006
||| Rendição. Primeira parte.
Portugal entrou bem, belo golo de Maniche. Bom Miguel pela direita, como sempre. E se Postiga saísse para entrar Boa Morte? Os mexicanos fazem passes rápidos que podem ser certeiros. Para já, o árbitro chama-se Lubos ‘Silva’ Michel.
20 Junho, 2006
||| Solstício.

A Festa do Solstício está organizada para amanhã, 21, em Tambores, freguesia das Chãs, Vila Nova de Foz Côa. A ideia é de Jorge Trabulo Marques - e conta com uma homenagem a Fernando Assis Pacheco (na foto, Assis e «a pedra onde ele ergueu os braços aos céus, após o pôr do sol»). A concentração é no Santuário Rupestre da Cabeleira de Nossa Senhora – nos Tambores – às 19.00 horas, daí seguindo a viagem até à Pedra do Solstício, onde todos devem estar às 20.00 horas.
19 Junho, 2006
||| Tunísia, 1 - Espanha, 3.


Repararam no fantástico Cesc, no trabalho e na magia de Torres “el Niño”, na classe dos passes de Xabi Alonso (ele, que dizia onde era o meio-campo) e de Cesc, na suavidade de Raul, no trabalho de Xavi? Desculpem o exagero. Mas o futebol faz mal ao coração, faz bem ao coração. E eu gosto.
||| Por falar em Brasil, agora que a Varig deu, fica a música.
Os últimos três anos de agonia e péssima gestão da Varig aproximam-se do fim, com histórias em que recordaremos a companhia (cada um com suas histórias -- as minhas derradeiras são bastante más...). Mas, para saudosistas, aqui estão alguns jingles clássicos de alguma da melhor publicidade radiofónica (e som para televisão) da Varig.
1. O célebre jingle que começa com «Seu Cabral ia navegando», em ritmo de fado, e que termina com saudações à «laboriosa comunidade luso-brasileira»; depois de Cabral ter sentido, «no peito / uma saudade sem jeito», diz a Pêro Vaz de Caminha que voltava já para Portugal -- «Quero ir pela Varig...»
2. Um dos melhores jingles de Arquimedes Messina sobre os 60 anos da Varig. Fantástico. «Sessenta anos voando, voando sem parar...» Termina com o saboroso «Variguii, variguiii, variguiiiii...»
3. Para quem recorda a canção, aí está o jingle clássico de Natal: «Estrela das Américas no céu azul, iluminando de norte a sul, etc., etc., chegou o Natal, papai Noel voando a jacto pelos céus…»
4. Outro clássico de Arquimedes Messina, aqui sobre a fusão Varig & Cruzeiro.
5. Finalmente, o mosaico musical da geografia brasileira da Varig. Muito bom.
Na foto, o primeiro hidroavião da Varig, Viação Aérea Rio Grandense.
||| Brasil, Austrália, 4.
César Seabra diz mal. Deus é grande e está a prever -- a idiotice do Allan, por exemplo. E para as meninas, o costume.
||| Estes já estão esgotados. Mas pode inscrever-se para os próximos.
ATELIERS PARA CRIANÇAS
NA CASA FERNANDO PESSOA
A Casa Fernando Pessoa dá início no próximo sábado, 24 de Junho (com uma sessão preparatória de esclarecimento aos pais), a um conjunto de ateliers de escrita, leitura e música destinados a crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 8 anos. Os ateliers funcionarão no auditório da Casa Fernando Pessoa ou no jardim exterior da Casa às terças-feiras entre as 16h e as 18h e às quintas-feiras entre as 10h e as 12h, com intervalos de quinze minutos no meio de cada sessão. O programa totaliza um conjunto de dez sessões, cinco por cada grupo de 12 crianças.
18 Junho, 2006
||| Brasil-Austrália,3.

Escreve, por mail, o Bruno Vieira do Amaral (e eu apoio inteiramente):
«Este Brasil, uma Alemanha que equipa de amarelo, é uma vergonha. A Alemanha sempre tem a desculpa de ser a Alemanha. O Brasil não se pode desculpar. Se onze Dungas estivessem em campo, uma pessoa compreendia. Assim, ninguém percebe. Argumentam os resultadistas que o Brasil sem magia ganhou duas de três Copas. Eu digo que não havia necessidade de jogar tão pouco. É provável que o Brasil venha a ganhar mais este Mundial. Os adeptos gritarão mas será como um orgasmo sem preliminares. Um orgasmo tão longe dos preliminares como a equipa de 94 da equipa de 82. O corpo estremece e arrepia-se mas acaba a vertigem e não fica nada para recordar. No dia seguinte, estarão todos os brasileiros já a pensar no orgasmo seguinte, daí a quatro anos. Por isto, o Brasil, outrora amante, sambista, malandro, virou corno, sem jeito, conservador. Ronaldinho, menino no Barcelona, é pai de família na canarinha. O que interessa é pôr o pão em cima da mesa. Nada de humilhar os adversários. Sejam eles croatas, australianos ou esquimós, é tudo gente que merece respeito, gente de trabalho duro. Com esta ditadura espartana no futebol, com a putativa melhor selecção do mundo imbuída de ética protestante, não admira que os tempos não sejam os melhores para os rebeldes, para os inconscientes, para os artistas. Os comentadores da imprensa internacional foram unânimes em considerar que Cristiano Ronaldo exagerou nos efeitos sem qualquer utilidade prática. O mesmo que dizer que o melhor de um quadro de Picasso é tapar o buraco na parede. Toda a arte é inútil. É um fim em si mesmo. Qualquer jogador, à excepção do Secretário, pode atrasar uma bola. Só os da estirpe de Ronaldo podem fazê-lo depois de fintar dois adversários. Não podemos louvá-lo por ele se cansar só para nos divertir? Quantos o fazem? Jesus Cristo cansou-se de levar pancada, até à agonia na cruz, para nos salvar. Cristiano não é filho de Deus. Não podemos esperar que ele nos salve, mas convém não crucificá-lo por ele nos divertir.
P.S: A crítica diz que C. Ronaldo joga para a bancada. É como a crítica que reprova o best-seller por ser best-seller.»
||| O cantinho do holigan. França-Coreia.
Já me esquecia: a França empatou de novo. Notícias destas alegram qualquer um. Dão ânimo.
||| Reformistas e revolucionários.
Escreve o Bruno Cardoso Reis:
«Nestas coisas da selecção parece que há os revolucionários, como o Francisco José Viegas, que queriam tudo de um vez e Portugal a jogar como a Argentina já. E depois há os reformistas, como o Nuno Sousa, que se contentam que pelo menos nos vamos esforçando no sentido certo. Eu estou com os reformistas de cabeça e com os revolucionários de coração.»Bom. O seguinte. Queria Portugal a jogar o melhor possível. Agora, se o possível não for bom, não me importo que se assinalem «os três pontos». Mas não me venham, ao fim do primeiro jogo, com a defesa da «margem mínima». Mais valia que dissessem: «Sim, jogámos mal, e depois? Nós, pelo menos, ganhámos. Depois se verá, isto está difícil.» Isso, eu aceitava.
E os jogadores que não se queixem da imprensa, por favor.
Já agora: reparem numa equipa que tem Deco, Maniche, Costinha, Figo e Ronaldo. O jogo é completamente diferente da que jogou com Angola e da que perdeu duas vezes contra a Grécia. E reparem nos movimentos da equipa depois de terem saído Figo, Deco e Maniche.
||| Revista de blogs. Tenham inveja.
«Cristiano Ronaldo: o único português que tenta entrar na baliza adversária a dar toques e sem deixar a bola cair no chão.»
{Francisco Trigo de Abreu, no Mau Tempo no Canil.}
||| Brasil, Austrália, 2.
1. Já não vão assobiar Ronaldo nos próximos minutos; ele deu a bola para Adriano marcar.
2. Aos 62', tudo volta ao mesmo, apesar de Kewell.
3. Por uma rádio brasileira ouço «Deus está nos ajudando»; só isso explica que a equipa não mude mesmo depois de sair Ronaldo. O deus dos Atletas de Cristo é um chato, o do futebol brasileiro é um conservador que só conhece as «Melodias de Sempre». Robinho deu mais velocidade mas o xadrez é o mesmo. Técnica Zagallo. Só a boa qualidade dos jogadores (à frente) vale.
4. Um teorema desta fase do Mundial: ser «quase brasileiro», querer que o Brasil ganhe -- e ver o Kaká enviar a bola à barra sem pular na cadeira. Uma tristeza, confesso envergonhado. Mesmo quando Fred marca o segundo.
Para supersticiosos.
||| Brasil, Austrália, 1.
1. Aos 15’ já me apetecia que a Austrália tivesse marcado, para dar um “empurrão” aos brasileiros. Digo-vos porquê: acabo de ver Zagallo aos berros no banco. Zagallo substituiu Raí por Edmundo “o Animal” num jogo no Maracanã, à minha frente. Ficou tudo dito.
2. “Todo o mundo” diz mal de Ronaldo. Também me apetecia que ele marcasse um golo e não o assobiassem só a ele, até porque, aos 22’48’,’ Cafu dá a bola a Dida, desde o meio campo. Primeira assobiadela. Assobiem mais vezes. Se fossem 11 cangurus a sério a jogar contra este grupo de pagode vestido de amarelo, já tinham furado aquela muralha de areia.
3. O juiz chama-se Markus “Ubiratan” Merk.
17 Junho, 2006
||| O penalty do miúdo.
Ainda bem que deixaram marcar o penalty ao miúdo. O miúdo merecia. Ele chama-se Cristiano Ronaldo e é magnífico de pés, bom de bola, miúdo de cabeça. O Portugalinho queria um rapaz que não risse e “jogasse para a equipa”. Ninguém sabe explicar isso. Quando Ronaldo joga na selecção ou no Manchester, joga para quem? Ele tem a ambição do adolescente, o génio que arrasta a bola consigo, a audácia dos bons jogadores – mas metade dos adeptos queria-o fora dos convocados. Sabem porquê? Simples. As pessoas não gostam de tipos excepcionais nem de miúdos que namorem com loiras daquelas. E, dos excepcionais, preferem aqueles que nunca riem (como Figo, que esteve muito bem). Deco era bom mas não era “português legítimo” e “não sabia cantar o hino com emoção”. Balelas – tudo inveja de um génio com os pés na bola, capaz de jogar vendo todo o campo. Ainda bem que ontem deixaram o miúdo marcar o penalty: ele merecia marcar um golo. E nós, que já tínhamos visto o golo fantástico de Deco, merecíamos que alguém risse daquela maneira, juvenil, idiota, feliz.
||| Revista de Blogs. No Mau Tempo no Canil.
«No intervalo do Tunísia-Arábia Saudita dei conta que nem sequer comentei o golpe de estado de Xanana Gusmão em Timor. Se calhar faço uma análise mais exaustiva depois do Alemanha-Polónia.» [Francisco Trigo de Abreu]
«Sonho de uma tarde abafada de Mundial: ainda hei-de ver o Pacheco Pereira de bandeira em punho a gritar 'o árbitro é ladrão!'» [Martim Silva]
«Vagas e vagas de pretos das tribos Gana e Gwi avançaram contra a fortaleza checa. Repito: mesmo a ganhar avançavam sete ou oito pretos à vez. Hordas de pretos a jogaram ao muda aos cinco acaba aos dez. E ficaram chateados com o apito final: queriam estar ali toda a noite. Pretos e mais pretos. Lindos.» [F. T. A.]
16 Junho, 2006
||| Poeira levada pelo vento.
Três anos de Portugal dos Pequeninos merecem menção -- e contentamento. O João escolheu esse título de Joaquim Manuel Magalhães para assinalar o aniversário do blog, e é uma escolha perfeita. Poeira levada pelo vento. Tudo o que escrevemos. Parabéns, João.
||| Bloomsday. 16 de Junho.
Quase vinte horas de Ulysses. A certa altura, numa das pontes sobre o Grand Canal, em Dublin, há uma placa de bronze no chão: aqui passou o Sr. Leopold Bloom, personagem de Ulysses. É a única cidade onde as personagens dos livros têm direito a placas nas ruas. Não longe dali, numa das paredes de um pub em Baggot Street, o Davy Byrnes, vejo cheques sem cobertura assinados por Joyce, notas escritas pelo seu punho. Fiquei uma vez no Bloom's Hotel, depois de ter atravessado meia Irlanda (de Derry, no Norte, até Dublin) vindo de um concerto de Van Morrison. Tudo é Joyce, no Bloom's: o papel de carta, as bases para copos, as chávenas de café, as fotos no elevador.
||| Zadie Smith.

Não sei se leram Dentes Brancos (Dom Quixote); é muito bom. Depois, em On Beauty, Zadie Smith confirmou tudo e ganhou o Orange. E ela tem este rosto.
[Ler também esta entrevista na Atlantic.]
||| Gratidão.



De alguma maneira, Frederico Lourenço é o responsável por termos redescoberto a leitura dos clássicos, dos grandes clássicos gregos. Pela forma como fala do tema, pelas suas traduções, pela jovialidade com que nos mostra os caminhos dessa leitura, este prémio é bom e justificado. Estou grato a Frederico Lourenço.
||| O subgénero humano.
No meio das notícias banais, devemos ler os relatos do horror. O caso de Vanessa lembra a existência de um subgénero humano. Qualquer juízo parece estar a mais, qualquer indignação. Tudo isto sugere que há uma dimensão insuportável dos próprios factos, que impede de pensar.
||| Nenhum lado da História.
Mário Ventura foi comunista, escreveu Vida e Morte dos Santiagos e, por fim, O Reino Encantado, um romance paralisado entre Portugal e a história do Brasil. Na minha adolescência também li A Noite da Vergonha. Entrevistei-o há um ano acerca de O Reino Encantado, e foi uma conversa agradável. Ele conhecia o seu lado e a sua versão da História; eu só me interessei pelos seus livros. E gostava dele.
||| De facto. Argentina.
Arrasador e cheio de talento. Uma resposta aos que se contentam com a ideia da «margem mínima» e têm sempre aquele ar sofredor. Não é pela goleada. É pelo jogo.
15 Junho, 2006
||| Alex. 
Alexandre Soares Silva, bloguista brasileiro, escritor, vem à Casa Fernando Pessoa no próximo dia 22, pelas 18h30, falar sobre 20 livros que foram importantes na sua vida. Um dos autores em destaque será Vladimir Nabokov: Soares Silva irá falar sobre o método de leitura de romances deste, baseado nas aulas que Nabokov deu em Cornell.
||| Estão doidos.
A Folha anuncia que Ruy Carlos Ostermann, «biógrafo do técnico Luiz Felipe Scolari, provocou uma crise na seleção portuguesa ao declarar, ao Jornal de Notícias, que a federação local vetou a convocação do goleiro Vítor Baía desde que o treinador brasileiro foi contratado». O manda-chuva Madail diz, à boa maneira de Madail, que «se o objetivo desse senhor [Ostermann] é o de desestabilizar a seleção nacional, então posso lhe assegurar que não irá conseguir». Deve ser piada, piada muito forte. A Folha diz que «Scolari não quis comentar o caso». Informação adicional: Ostermann é um dos melhores amigos de Felipão em Porto Alegre. Foi a ele que deu a grande entrevista exclusiva depois do Mundial de 2002.
||| José Silva.
«O gene que protagonizou uma experiência científica do biólogo português José Silva, do Instituto de Investigação de Células Estaminais, em Edimburgo, na Escócia, não podia ter um nome mais apropriado. Chama-se Nanog, que quer dizer, em gaélico, "terra dos sempre jovens".» Público
14 Junho, 2006
||| Adufe.
O Rui Branco emigrou para um servidor irlandês. É lá que está o Adufe. Deve estar sentado debaixo de um freixo a ouvir Van Morrison (do Irish Heartbeat) ou Paddy Moloney enquanto recita Sean O'Casey, embalando o rebento. Ao longe, sobre o Liffey, ouve-se a voz de Ronnie Drew cantando «The Auld Triangle» e «Seven Drunken Nights».
13 Junho, 2006
||| Brasil - Croácia.
O escrete ficou devendo futebol. Jogou malzinho, jogou deficiente – ou seja, sem eficácia. Ronaldo estacionado como um buda e Ronaldinho apenas um retrato do que costuma ser – mas aqui há um erro de estratégia, parece-me. Uma estratégia de Parreira, que parece tirada a papel químico da múmia Zagallo. Onde é que se viu o Brasil, aos oitenta minutos, a defender o resultado?
||| A FIFA e a tv.
A FIFA deve ter imposto uma disciplina qualquer à televisão, que não transmite repetições de boas jogadas. Já não falo de lances duvidosos, onde acredito que queira poupar os árbitros. Há pouco, por exemplo, impediu-nos de ver aquela entrada em campo do torcedor croata e do voo encarpado seguido de salto mortal do “steward” alemão. Estava o homem dentro de campo, a rádio e os blogs online já falavam do assunto e a televisão como se não fosse nada. Estas transmissões bem-educadas, se me entendem, podem salvar a honra do convento, mas não são de fiar.
||| Questões a juristas, 3.
Em ordem os comentários ao post sobre a qualidade dos livros ou seja, o respeito pelo consumidor.
Escreve o Tiago Falcoeiras:
«[...] A verdade é que li alguns livros de alguns autores editados por cá, e só li o primeiro em português. Importados são mais baratos, mais atractivos e sofrem menos no tratamento da língua. Li O Confessor, de Daniel Silva (que está na FNAC nos autores portugueses), e era quase página sim, página sim, oserros, as gralhas, as falhas de revisão, se é que houve revisão. E quando são livros traduzidos com erros destes já não é mau; o pior é quando o mesmo acontece aos livros de autores de expressão portuguesa. O que fazer? Escrever para as editoras e mostrar o nosso descontentamento. Escrevi para a Saída de Emergência e no espaço de 24 horas, tinha um pedido de desculpas e convicção de que a situação iria mudar.»M em Campanhã conta outra história:
«Comprei um livrito de bolso das Publicações Europa-América, não porque aprecie particularmente o formato mas porque, tanto quanto consegui apurar, têm a única edição portuguesa do tal livro e eu queria mesmo AQUELE livro (A morte de Ivan Illitch, que o mestre João L Antunes refere repetidamente nos seus livros). A edição é de 2004 (não do século passado) e é confrangedora a quantidade de gralhas (muito mais do que erros) por página. Apetece ler o livro de caneta vermelha em punho. Até já pensei em oferecer-me à editora, para rever, gratuitamente, a próxima edição. Que mais poderia fazer?»Nota de Nuno Seabra Lopes, da Extratexto:
«A Extratexto, como revista especializada de profissionais de edição e estudos editoriais que é, apoia todas as acções dos consumidores no sentido de exigir qualidade no trabalho gráfico e editorial que se faz em Portugal. Não existe desculpa para o facto de alguns dos produtos nacionais não corresponderem às condições mínimas de qualidade que qualquer produto deve ter, e ainda para mais um livro, um produto da indústria cultural que necessita constantemente de justificar a utilidade e mais-valia do que produz. Pessoalmente, confesso que em todas as editoras onde trabalhei ou tive/tenho relações profissionais, sempre observei abertura total aos consumidores que lá se dirigiam com os produtos defeituosos (apesar dos defeitos apresentados serem sempre gráficos ou de produção e não editoriais), sendo ressarcidos em valor ou com outro produto conforme. Se nada for feito, as empresas continuarão a não ter motivos para apostar na qualidade dos seus produtos, pois as editoras nacionais não estão ainda vocacionadas para agir numa óptica de marketing estratégico, e continuarão a julgar que os níveis de qualidade que apresentam são suficientes para o nosso mercado. Recordo que Portugal é um dos países com a mais reduzida aposta na editoração de textos, com reduzida formação na revisão e concepção de conteúdos editoriais.»Sobre questões legais, escreve Jorge Silva:
« Decreto-Lei n.º 67/2003, de 8 de Abril: Artigo 2.º, Conformidade com o contrato:Mais tarde, AMB analisa a situação:
1 - O vendedor tem o dever de entregar ao consumidor bens que sejam conformes com o contrato de compra e venda.
2 - Presume-se que os bens de consumo não são conformes com o contrato se se verificar algum dos seguintes factos:
a) Não serem conformes com a descrição que deles é feita pelo vendedor ou não possuírem as qualidades do bem que o vendedor tenha apresentado ao consumidor como amostra ou modelo;
d) Não apresentarem as qualidades e o desempenho habituais nos bens do mesmo tipo e que o consumidor pode razoavelmente esperar, atendendo à natureza do bem e, eventualmente, às declarações públicas sobre as suas características concretas feitas pelo vendedor, pelo produtor ou pelo seu representante, nomeadamente na publicidade ou na rotulagem.
Por violação de ambos os artigos, a lei dispõe o seguinte:
Artigo 4.º
Direitos do consumidor
1 - Em caso de falta de conformidade do bem com o contrato, o consumidor tem direito a que esta seja reposta sem encargos, por meio de reparação ou de substituição, à redução adequada do preço ou à resolução do contrato.
2 - A reparação ou substituição devem ser realizadas dentro de um prazo razoável, e sem grave inconveniente para o consumidor, tendo em conta a natureza do bem e o fim a que o consumidor o destina.
3 - A expressão «sem encargos», utilizada no n.º 1, reporta-se às despesas necessárias para repor o bem em conformidade com o contrato, incluindo, designadamente, as despesas de transporte, de mão-de-obra e material.
4 - Os direitos de resolução do contrato e de redução do preço podem ser exercidos mesmo que a coisa tenha perecido ou se tenha deteriorado por motivo não imputável ao comprador.
5 - O consumidor pode exercer qualquer dos direitos referidos nos números anteriores, salvo se tal se manifestar impossível ou constituir abuso de direito, nos termos gerais.
A situação descrita deve ser analisada nos termos deste diploma legal, pelo que poderá exigir a resolução do contrato.»
«Não é líquida a aplicabilidade do regime previsto pelo DL 67/2003, de 8 de Abril, já que o artigo 1.º limita o âmbito de aplicação às relações de consumo tal como definidas pela Lei de Defesa do Consumidor. Ora, se o FJV comprar um livro sobretudo técnico, mais vocacionado para o exercício da sua profissão do que, digamos, para o lazer, não se tratará de uma relação de consumo («considera-se consumidor todo aquele a quem sejam fornecidos bens, prestados serviços ou transmitidos quaisquer direitos, destinados a uso não profissional, por pessoa que exerça com carácter profissional uma actividade económica que vise a obtenção de benefícios»). Não quer isto dizer que este tipo de situações fique a descoberto. Na pior das hipóteses, o bom do velho Código Civil também está lá para assegurar alguma “conformidade”, como agora se diz. Tudo está em saber se o vício do bem o desvaloriza ou impede a realização do fim a que aquele se destina ou, ainda, não tem as qualidades asseguradas pelo vendedor ou as necessárias para a realização daquele fim – art. 913.º. Se sim, talvez alguma coisa se consiga. Uma substituição (como faz a Coimbra Editora quando as capas não aguentam coladas aos livros mais de um dia ou os livros se descosem) ou uma reparação (às vezes, mandam colar os livros). O regime é complexo e enviesado, o que dificulta a sua plena aplicação. Seja como for, à luz do dito Código, o vendedor a nada está obrigada se desconhecia sem culpa o vício ou a falta de qualidade do bem (más traduções, gralhas, etc.). Voltando às relações de consumo, não creio que qualquer uma das situações se enquadre nas duas alíneas do citado art. 2.º. Em resumo: sim, talvez devesse ser ressarcido, mas não creio que o quadro legal vigente viabilize tal ressarcimento.»E Jorge Silva responde:
«Duas considerações: 1.º Não sei como aferiu que tal livro seria técnico e destinado ao uso profissional.(esta seria uma prova complicada de fazer); 2.º Afirma que a situação descrita não se enquadra nos termos da lei indicada, julgo que o autor do livro não indicou que o mesmo estava mal traduzido, assim como quando se compra um livro não se espera que o mesmo esteja mal cosido ou que o mesmo contenha diversas gralhas e erros grosseiros que imagino não serem normais e muito menos estarem anunciados pelo, autor,vendedor, etc. Esta é uma situação clara de direito de consumo, com protecção legal definida mas, infelizmente ,com muito poucos resultados práticos pois como o valor da demanda é diminuto, ninguém faz valer os seus direitos. Em situação análoga já pedi a substituição do livro ( apenas quanto à situação da capa mal cosida) o que me foi atendido pelo supermercado da cultura.»Atento acrescenta:
«Penso que a situação relatada é perfeitamente enquadrável na LDC (Lei de Defesa do Consumidor), e neste caso, diz-nos o seu art. 12.º que o consumidor pode exigir a reparação, substituição, redução do preço ou resolução do contrato (conforme a reparação ou substituição seja ou não impossível) INDEPENDENTEMENTE da culpa do fornecedor do bem.
Também se pode pôr a hipótese de responsabilizar a editora respectiva, mesmo sem culpa.»
||| Revista de blogs. Razões.
«Posto isto, gostei bastante da vitória da Austrália. Sobretudo por ter sido contra o Japão, que é o país que, juntamente com a Coreia do Sul, tem mais jogadores ruivos.»
[Besugo, no Blogame Mucho.]
||| Questões aos juristas, 2.
No comentário ao post anterior, Jorge Silva menciona o Decreto-Lei n.º 67/2003 de 8 de Abril. Recomendo uma leitura para verificar se a lei tem alguma aplicação ao problema, que não acho nada académico, nada virtual. É um problema real que afecta a vida de muitos consumidores, neste caso consumidores de livros. Imaginemos que alguém compra um livro: a sua tradução é deficiente e tem erros graves, a impressão é irregular e defeituosa, está mal cosido ou a cola (muitas vezes usa-se cola de sapateiro, que é mais barata) não funciona, as guardas soltam-se (no caso dos hardcover, problemas com a talagarça), as notas de rodapé não correspondem à numeração exacta com que aparecem no texto -- a título de exemplo. O que pode fazer o consumidor? Já não falo de livros que não são «conformes com a descrição que deles é feita pelo vendedor» (do género «neste livro debate-se o problema do destino humano e as barreiras à felicidade») ou não possuem «as qualidades do bem que o vendedor tenha apresentado ao consumidor» (como «este livro é muito bom») -- mas de livros com problemas mais evidentes, tais como erros ortográficos, ou erros de tradução, por exemplo.
12 Junho, 2006
||| Questões aos juristas.
Por exemplo, no domínio do direito do consumidor. Se um leitor compra um livro mal cosido, mal traduzido, cheio de gralhas – pode ou não ser ressarcido?
||| Programa Escrita em Dia, Antena Um.

Em formatos wma ou realplayer, aqui estão as mais recentes entrevistas do Escrita em Dia na Antena Um, com Vasco Santos (editor, da Fenda), Mário Zambujal (autor de Primeiro as Senhoras), Manuel da Silva Ramos (autor de Ambulância), Paulo Moura (autor de Passaporte para o Céu) ou de Filomena Marona Beja (autora de A Adoração dos Crepúsculos).
||| Liberdade de imprensa.
«O debate público deve ser desinibido, robusto, amplo, e pode e deve incluir observações veementes, algumas vezes cáusticas, e mesmo desagradáveis, com respeito às pessoas dos homens públicos ou seus atos. [...] O espírito do jornalismo está em que, na pressa, ânsia ou necessidade de sua profissão, o jornalista, se fosse se deter em busca de provas definitivas, jamais escreveria coisa alguma. A sanção contra o jornalista deve ser a da própria opinião pública, e através da lei, quando ficar provada de maneira irrefutável a intenção dolosa. Segundo todos os juízes e o mais liminar bom senso, os críticos devem possuir total imunidade, principalmente porque os homens públicos têm sempre igual, se não maior, acesso às tribunas populares, podendo neutralizar imediatamente qualquer mal que lhes atinja a reputação.» [De uma decisão do Supremo americano, ao absolver o NYT no caso Connaly contra NYT, citada e traduzida por Millôr Fernandes, publicada em Setembro de 2004 na Veja; citada daqui e daqui.]
||| Alex. 
Alexandre Soares Silva, bloguista brasileiro, escritor, vem à Casa Fernando Pessoa no próximo dia 22, pelas 18h30, falar sobre 20 livros que foram importantes na sua vida. Um dos autores em destaque será Vladimir Nabokov: Soares Silva irá falar sobre o método de leitura de romances deste, baseado nas aulas que Nabokov deu em Cornell.
||| Não.
Por causa dos comentários a este post: não, não quero que a selecção perca. Quero que ela ganhe. Mas também quero que nos maravilhe. Entendidos?
11 Junho, 2006
||| Uma solução para certos jogos.
Ora aí está: «A milícia islamista que controla, desde o início do mês, grande parte da capital da Somália proibiu os habitantes de assistirem aos jogos do Mundial da Alemanha.»
||| De que é que estavam à espera? {Actualizado}
Acabo de ouvir Figo perguntar isso mesmo a um jornalista, depois do jogo contra Angola. De que é que estávamos à espera? Não estávamos à espera de que jogassem tão bem como a Argentina, os Camarões ou, enfim, Trinidad e Tobago. Mas estávamos à espera de que não confirmassem a ideia de que são aquilo que me apetece chamar-lhes.
Adenda: Sim, Portugal ganhou e isso é fundamental; bravo. Parabéns. Heróis de Colónia. Campeões do 11 de Junho. Luminosos rapazes. Agitemos as nossas bandeiras. Loas a N. Sra. do Caravaggio. Etc, e etc. Mas, para entendimento geral, a seguinte pergunta: jogámos bem? Só isso.
Paulo José Miranda sobre o jogo de ontem.
||| Brasil: sem vergonha.
Eles regressam com aplauso do companheiro.
||| Copa.
Ronaldinho entrevistado por Luis Fernando Verissimo.
Felipão diz que tem frio na barriga.
10 Junho, 2006
||| Audiovisual, audiovisual.
«O governo estuda, por exemplo, cobrar uma taxa da ex-estatal Portugal Telecom para obter uma verba de cerca de 25 milhões de euros para apoiar a indústria audiovisual.»
||| Brasil no seu melhor.
A frase do dia, Ronaldo: «Todo mundo diz que ele bebe pra caramba. Tanto é mentira que eu sou gordo como deve ser mentira que ele bebe pra caramba.» Como se pudesse dizer: «Eu sei que ele é abstêmio. Mas vira e mexe a gente lê aqui na imprensa brasileira que ele bebe, bebe, bebe, bebe. Ele bebe ou não bebe?»
O homem do número 13, Zagallo: «Vamos estrear no dia 13. É o 13 do PT, presidente, rumo à vitória.» Bom motivo para apoiar a Croácia no dia 13.
09 Junho, 2006
||| Peter Handke.
Uma derrota da liberdade de expressão.
||| Enquanto isso, em Portugal.
Enquanto as páginas de sociedade discutem a bofetada no gaiato, um tribunal de Guimarães acaba de proferir a sentença sobre «o caso dos atestados médicos», quando as escolas secundárias Francisco de Holanda e Martins Sarmento «receberam mais de 900 atestados para justificar faltas durante a época de provas globais» (foi em 2000). Diz o Público na edição de hoje: «O número de atestados, na sua maior parte alegando cansaço e stress, acabou por levar o Ministério de Educação a repetir os exames e a instaurar um inquérito. O rol de acusados, um total de 251, foi diminuindo à medida que médicos e estudantes aceitaram a proposta do tribunal para o pagamento de uma injunção junto de uma entidade de solidariedade social, em substituição do julgamento, ou apresentaram uma ficha de consulta médica.»
«A decisão é justa, ficou salvaguardada a dignidade dos médicos», disse um dos advogados. 900 atestados, lembrem-se disto. 900 atestados em dois dias. E o tribunal diz «não ter ficado provado que os alunos não se encontrassem doentes na altura». Guimarães faz mal à saúde? Os vimarenenses deviam protestar contra esta suspeição levantada pelo douto tribunal.
08 Junho, 2006
||| Back to work.
Bom. Recomecemos.
Entretanto, uma curtíssima conversa de blogosfera: obrigado a todos os que enviaram mails ou deixaram mensagem na caixa de comentários; agradeço a todos, sinceramente. Uma coisa é verdade, para mim, e quero que saibam: fiquei surpreendido e contente -- e não desvalorizo o prémio nem recuso essas coisas, seria indelicado; agradecer as distinções que nos dão é sinal de boa educação. Também é verdade que foi o livro que mais gostei de escrever. Diria muito mais coisas, mas não estamos aqui para isso, pois não?
07 Junho, 2006
||| Grande Prémio de Romance e Novela 2006.
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2006.
Longe de Manaus (edição Asa)
06 Junho, 2006
||| Museu da Língua.
O José Pacheco Pereira menciona hoje no Abrupto o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Na verdade, trata-se de um monumento importante sobre a Língua Portuguesa, ligado a mais de 20 000 escolas, com espaços de exposições, conferências -- e com um roteiro sobre a história do Português. O que impressionou, logo na inauguração (além da exposição de Bia Lessa sobre Guimarães Rosa e Grande Sertão), foi o gigantesco planetário da Língua, onde -- já agora-- os autores portugueses (sobretudo Pessoa, Sophia e Camões) têm sempre um lugar de destaque. Ver mais aqui -- e aguardemos as fotos prometidas de JPP.
||| Imposto europeu sobre sms e e-mail. O regresso. {Actualizado mas não retirado.}
Notícia: «Segundo contas do “Jornal de Negócios”, os portugueses teriam de desembolsar 156,44 milhões de euros, ou seja, cerca de 15,6 euros por pessoa. Recorde-se que o Parlamento Europeu está a estudar o lançamento de um imposto sobre SMS e e-mails, para financiar os fundos comunitários.»
O Pedro Figueiredo insistiu (e fez bem) em acrescentar que esta história tem sido muito exagerada e que tem circulado por todo o lado sem ter sido confirmada junto das fontes. Ver este e este outro link, que nasceram, também, desta notícia da Reuters.
||| Sim, sim. Nada de livre-escolha, nada de opções. Ou de como o Estado pensa por nós todos, fumadores e não-fumadores.
Texto do Diário de Notícias: «A proposta do ministro Correia de Campos mantém, pois, a medida mais criticada e polémica: a proibição de fumar em todos os estabelecimentos. O Ministério da Saúde reitera esta medida invocando a Constituição da República e argumentando que todos os cidadãos têm o direito à protecção da saúde. Num documento disponibilizado ontem no portal do ministério, o Executivo alega ainda que a eventual livre escolha dos proprietários retiraria eficácia à medida.» [destaques meus.]Até agora, pensei que a medida moralizadora seria civilizada e justa; mas os sinais levam a pensar que ocorrerá em Portugal o que começa a acontecer em Espanha -- as pessoas desrespeitam a lei. O sr. Ministro merece ser desrespeitado.
«De fora da segunda versão da lei do tabaco fica, no entanto, uma das principais reivindicações do sector turístico e da restauração: a possibilidade de poderem optar por um estabelecimento com ou sem fumo. À semelhança do que acontece na vizinha Espanha.»
«Se os clientes acenderem um cigarro num restaurante, café ou discoteca, os donos deverão adverti-los da violação da lei. [...] os donos de cafés, restaurantes e discotecas ficarem com esta missão de alertar e, no limite, chamar as autoridades para punir os seus próprios clientes [...]» [Projecto de Correia de Campos aqui.]
Ainda bem que há dois dias apenas citava o texto de Javier Marías:
«La idea antigua de que sólo las dictaduras eran totalitarias resulta ingenua, porque el totalitarismo consiste, sobre todo, en la intromisión de los Gobiernos en todas las esferas de la sociedad, en el afán de regularlo, controlarlo e intervenir en todo, de condicionar la vida de los ciudadanos e influir en ella, en no dejarles apenas márgenes de libertad y decirles cómo han de comportarse y organizarse, no sólo en lo público y común, sino asimismo en lo personal y privado.»
||| Humores.
O que leva uma pessoa como Eduardo Prado Coelho a escrever o que hoje escreve no Público é provavelmente um mistério. O mundo, portanto, divide-se em bons e maus; entre aqueles que dizem bem de nós e aqueles que pensam mal de nós; entre os que conhecemos (e portanto existem) e aqueles que não mencionamos (e portanto não existem); entre aqueles a quem emprestamos a aura e aqueles que não queremos conhecer. É simples. Uns são bons, outros são débeis mentais, outros (se nos conhecerem e se nós os incluirmos na lista dos nossos conhecidos) são interessantes, e ainda há a massa anónima que, claramente, não existe porque nunca foi simpática para nós.
||| Incêndios. {Actualizado}
Há uma coisa que não percebo nisto dos incêndios. Não estava previsto que tínhamos meios e que ia estar tudo mais atento?
Escreve Duarte Moral, assessor de imprensa do Ministro António Costa (além de meu amigo e blogger):
1. É verdade que temos mais meios do que sempre. Basta consultar os dados comparativos dos anos anteriores com este. E, sobretudo, vamos ter uma reserva de meios próprios, não alugados e que estarão sempre ao nosso dispor. Mas o dispositivo, como compreenderás, não pode ser sempre o mesmo, todo o ano. Tem que ser adaptado ao risco. Talvez o País ficasse impressionado se tivesse noção do que é que se gasta para ter esse dispositivo. E, das duas uma. Ou se tem, e se paga. Ou não se tem e não se paga. E se se quer ter mais, paga-se ainda mais.
2. Se verificares no site http:// incendiosflorestais.snbpc.pt tem havido quase trezentos incêndios por dia e muito poucos têm ultrapassado a fase do fogacho, o que significa, objectivamente, que tem havido eficácia no combate à maioria deles, que têm sido apagados logo no início.
3. Este ano, a directiva operacional tem uma estratégia que passa pela utilização dos meios aéreos sobretudo na primeira intervenção, para tentar apagar fogos ainda no seu início. Quando os fogos ganham alguma proporção, os meios aéreos deixam de ser eficazes (é como tentar apagar uma lareira com um conta-gotas...) e devem concentrar-se a apagar outros fogos nascentes. Nessa altura, só o combate terreste faz sentido. Não perceber isto é ceder ao populismo e aos impulsos mais primários das pessoas, certamente compreensíveis, mas para quem o fogo que está à porta de sua casa é sempre o fogo mais importante do mundo. É também a isso que o teu post sobre incêndios parece ceder. É por isso que a gestão dos meios aéreos deve estar a cargo não de políticos, ou de jornalistas, ou de populares, mas de técnicos que saibam o que estão a fazer e tenham uma visão global da situação.
4. Poderás dizer certamente muita coisa sobre aspectos estruturais da questão florestal em Portugal, sobre questões da prevenção, etc, etc. Mas quando a casa arde, só se lembram das questões que têm a ver com o combate.
||| Serviço público, 2. As cervejas portuguesas. Primeira parte.
Depois de ter proposto o top ten das cervejas brasileiras, eis algumas das notas de prova (já com dois meses, mas enfim) de algumas das cervejas portuguesas (de * a *****): Sagres, Sagres Chopp, Sagres Bohemia, Sagres 1835, Super Bock, Super Bock Abadia, Super Bock Preta, Magna, Coral, Cergal e Tagus.
Conclusão até agora: vitória, nas cervejas escuras, da Super Bock Stout (seguida de perto pela Magna); nas ruivas, da Sagres Bohemia 1835 (seguida da Bohemia); nas loirinhas, da Tagus.
Seguem-se, durante esta semana, mais algumas.
||| E portanto.
«Governo deixa cair penalização para quem tem menos filhos. [...] A proposta entregue aos parceiros sociais previa que o valor da taxa social única iria diminuindo para os casais com três filhos ou mais e aumentando para quem optasse por não os ter.»
Ver, neste blog, algumas das opiniões contra a fantástica ideia agora abandonada.
||| Coimbra.
Está certo que a Central de Cervejas já produz a Sagres Selecção, que é muito boa. O revivalismo também está, aí, nos frigoríficos onde há Cergal (mazita) ou ate Clock (mazinha). Mas, de todas as vezes que vou a Coimbra -- como agora aconteceu -- pergunto sempre a mesma coisa: «Então e a Topázio?» Eu gostava da Topázio. Bebia Topázio e levava Topázio, de Coimbra para onde fosse. A última vez que a bebi (no Ticino, onde nunca mais voltei) não sabia que era a última vez.
Na semana passada, entre gente de Coimbra e em Coimbra, perguntei a certa altura: «Então e a Topázio?» Esperava essa demonstração de sabedoria e de bons conhecimentos (saudosismo e, vá lá, choraminguice, nunca me convencem), associada a um revirar de olhos que reenviava para um copo de cerveja num Verão distante. Os meus interlocutores variaram. Um diz que não bebe. O outro não conhecia. Eu envelheci.
(Filipe, diz-me que isto não é verdade e que eles nem eram de Coimbra...)
||| Mails, gentis e perplexos.
O Público noticia que há correntes de mails contra a Ministra da Educação. Deve haver. Recebi alguns deles mas ri com aquele que apelava para que se protestasse junto do Presidente da República porque a situação é tal que até houve «um economista» que escreveu uma crónica indecente na Notícias Magazine (JN & DN, ao domingo): «Colegas, temos deixado que nos enxovalhem e ficamos calados. [...] O senhor que assina a carta do JN devia ser processado. Creio que, neste momento isto toca as raias do abuso.» Fui ver (como no poema do Augusto Gil). Tratava-se do texto de Manuel Ribeiro «economista», que toda a gente sabe que é «página de humor» na NM (aliás, Manuel Ribeiro nem existe). Portanto, Blog dos Marretas e Inimigo Público, cuidado.
||| Recepcionar.
Vital Moreira ouve poucos comentários de futebol na tv. De contrário, já teria saltado da cadeira com o «recepcionar», que agora «recebeu» de uns «serviços competentes». Quanto ao «educacionar» que cita no seu post, o Vital também não está atento ao que dizem certos docentes da área de ciências da educação, aí de Coimbra, pois não?
||| Dualidade de critérios.
«Na TSF repete-se até à exaustão que bandos armados de delinquentes lançam o pânico nas ruas de Díli: longe vão os tempos parisienses da procura das causas da violência, das entrevistas a sociólogos e activistas, das reportagens de investigação feitas pela própria rádio.» [...] «Em Timor, são jovens deliquentes que se entregam ao vandalismo e à pilhagem; nos arredores de Paris, são jovens marginalizados que protestam politicamente contra a exclusão e o neo-liberalismo.» No Mar Salgado.
05 Junho, 2006
||| Leitura.
A leitura e as virtudes cívicas. Artigo desta segunda-feira no JN.
||| Lembramo-nos de cada coisa.
«Parece que en los actuales tiempos no existe Gobierno, casi ni Estado, sin tendencias totalitarias. Da lo mismo que sea de derechas, centro o izquierdas, que tenga mayoría absoluta o pelada, que sea americano, europeo, africano o asiático, que haya alcanzado el poder en las urnas o mediante un golpe. La idea antigua de que sólo las dictaduras eran totalitarias resulta ingenua, porque el totalitarismo consiste, sobre todo, en la intromisión de los Gobiernos en todas las esferas de la sociedad, en el afán de regularlo, controlarlo e intervenir en todo, de condicionar la vida de los ciudadanos e influir en ella, en no dejarles apenas márgenes de libertad y decirles cómo han de comportarse y organizarse, no sólo en lo público y común, sino asimismo en lo personal y privado. Y de la misma manera que se va perdiendo la creencia de que las diferencias entre particulares puedan dirimirse sin recurrir a un juez, y así los países se llenan de denuncias y pleitos, también se está perdiendo una noción importantísima para las sociedades libres, a saber: que no todo tiene que estar regulado y supervisado por instancias superiores; que el Estado no tiene derecho a opinar de todo y menos aún a dictar normas para cualquier actividad, iniciativa o costumbre. Y al perderse esa noción se le cede todo el campo al Gobierno de turno (lo que todo Gobierno desea), con la consiguiente renuncia de los individuos a sus criterios, su participación y su autonomía. Un suicidio.»{Javier Marías, no El Pais, de 8 de Janeiro passado.}
||| Não esqueça.
Hoje, na TSF, às 19h10, Abel Barros Baptista entrevistado por Carlos Vaz Marques.
||| Previsão.
Quase de certeza que, com isto, vai passar a haver menos divórcios.
||| O Douro, passeado esta manhã.
O primeiro-ministro vai esta manhã, daqui a nada, fazer uma marcha pela «preservação da paisagem do Alto Douro Vinhateiro», acompanhado de 4 mil crianças. É saudável marchar ao longo do Douro. Faço isso desde miúdo. Mas, no caso, era melhor que, antes de elaborar excelentes candidaturas a património classificado pela Unesco (como aconteceu com a das vinhas do Douro, aceite em 2001), alguém pensasse que essa classificação tem regras muito claras e que não se pode continuar a construir da maneira desordenada como as autarquias deixaram que acontecesse ao longo do rio, sobre o rio, tapando a vista do rio, contra o rio. Nós gostamos de classificar o nosso património, seja o do Douro, o do Pico, o de Marvão, o que apreciamos -- mas é preciso ser ainda mais rigoroso nessa apreciação depois de a classificação ser aceite.
||| Medeia na Casa Fernando Pessoa.
A recriação poética da Tragédia de Eurípides, na tradução de Sophia de Mello Breyner, será apresentada na Casa Fernando Pessoa, hoje pelas 18h30, por Frederico Lourenço - autor do prefácio da mesma edição. A sessão contará igualmente com a presença da encenadora Fernanda Lapa e de parte do elenco da produção de Medeia (até 11 de Junho no Teatro Nacional D. Maria II).
||| Desculpas públicas.
Não seria melhor que, para ser justo e resolver as coisas de uma vez, o Ministério da Educação apresentasse públicas desculpas a todos nós pelas arbitrariedades, erros grosseiros, delírios, mediocridades, reformas sucessivas, falta de empenho e de estudo, cometidos durante os últimos anos -- em vez de procurar culpados cá fora, com um ar de inocência nada convincente?
[Ver o artigo de Beatriz Pacheco Pereira («Em que país estava a ministra da Educação?») no Público de hoje; link para assinantes.]
04 Junho, 2006
||| Peru.
Vitória de Alan García contra o «nacionalista» Ollanta Humala. Chávez não conseguiu. [Ver texto de C. Tellez sobre o mal menor.]
Também aqui e aqui, reacções da imprensa venezuelana.
Ver estas declarações de Alejandro Toledo: «El presidente Chávez tiene la suerte de tener petróleo, que Dios lo bendiga, pero que no se oponga a que aquellos países que necesitan mercados puedan hacer tratados con otros países.»
||| Manolo.
De uma velha entrevista de Manuel Vázquez Montalbán ao La Vanguardia:
«[...] — Esperemos que le quede mucho tiempo de lucidez!
—No creo que me quede demasiado, cuando empiece ya a hacer tonterías... Espero que me sigan interesando los resultados del Barça, como síntoma de que aún conservo una cierta tensión energética.
—El fútbol es un buen indicador de que mantienes la cordura.
—Sí. Hay una historia muy bonita de un jugador histórico del Barça, Samitier. Cuando estaba a punto de morirse se compró una sepultura en el cementerio de Les Corts, junto al Camp Nou, y cuando le preguntaron por la adquisición, dijo: "Es que así, por los gritos de la gente, los domingos sabré cómo va el Barça". »
||| «Peço desculpa. Ando excitado.»
Isto é coisa que um tipo diga nos jornais? Ninguém lhe explica?
||| Sobre Timor.
Sobre Timor, o seguinte: a diplomacia portuguesa é envergonhada e a política externa portuguesa assentou em que gosta de lançar pirotecnia patriótica em momentos de crise. A leitura do Paulo Gorjão permite entender alguma coisa desta trapalhada. Trapalhada do envio da GNR, trapalhada da saída de professores de Díli, trapalhada de fugas de informação «sob inquérito», trapalhada enfim.
||| Papelinho português.
O brasileiro Ivan Lessa, que vive em Londres, sobre o mais luxuoso papel higiénico: «Assim como os pastéis de nata de Belém e o bacalhau à Lagareiro, o papel higiênico preto, conhecido pela marca “Renova Black”, pode ser encontrado no novo e chiquérrimo armazém de luxo da Harrods.»
||| Hoje, o Peru.
Eleições no Peru, um tira-teimas. Chávez (segundo o El Nacional, e segundo o El Mundo, ambos da Venezuela) é o mais atento.
02 Junho, 2006
||| Rússia.
Só para desviar as atenções, mas com alguma utilidade. Vale a pena passar periodicamente pelo blog de José Milhazes, o correspondente do Público e da TSF em Moscovo, o Da Rússia.
||| Mais Cecília Meireles.
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
[Por sugestão do George Cassiel.]
||| Cecília Meireles. (Às vezes eu leio demasiadas vezes este poema, mas não há remédio, e de tempos a tempos aparece aqui.)
«Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor./ Outras vezes encontro nuvens espessas./ Avisto crianças que vão para a escola./ Pardais que pulam pelo muro./ Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais./ Borboletas brancas, duas a duas,/ como refletidas no espelho do ar./ Marimbondos que sempre me parecem/ personagens de Lope de Vega./ Às vezes, um galo canta./ Às vezes, um avião passa. [...]» [Cecília Meireles]
||| Falar para a imprensa.
«Pois que agora temos que falar todos os dias?», perguntava Luís Figo aos repórteres que lhe mendigavam, à porta do estágio de Évora, o favor de uma declaração, uma declaraçãozinha que fosse, sobre as pubalgias, os metatarsos, o mister, o 4x4x2, o grupo de trabalho, seja o que for. Os jornalistas ficaram magoados. Mas não devem. Eles aceitaram «cooperar» com o Clube Portugal. Estão lá para servir de altifalante do que o Clube Portugal quer dizer, quando quer dizer, se quer dizer. «Pois que agora temos que falar todos os dias?»
||| Causas nacionais.
Só não percebo por que razão o envio de militares portugueses para Timor é uma questão nacional, e por que motivo as nossas (implícitas, explícitas) críticas à falha de governação em Timor são correctas -- e, ao mesmo tempo, a Austrália é acusada de ingerência nos assuntos internos do país. Se queriam o petróleo para a Galp, tivessem actuado mais cedo. Mas não venham com a moral.
||| Câmaras ocultas.
Percebo o argumento das câmaras ocultas a propósito da reportagem da RTP sobre violência nas escolas. Mas o que me assusta (é uma maneira de dizer) é que isso é uma maneira obtusa de poupar as boas consciências à realidade da violência nas escolas. Quem nunca viu um professor agredido, pode duvidar; e quem não conhece histórias dessas, pode duvidar ainda mais. Há várias histórias em que o Ministério da Educação, em nome «da inclusão», se tem recusado a intervir e a punir as criancinhas, obrigando o professor (as professoras, nas duas histórias brutais que conheço) a não reagir -- até porque os pais iriam esperá-lo à saída, e porque o professor está lá para levar os estalos que a rapaziada lhes quer dar, até por motivos de inclusão social. Vão lá, vão.
||| Dias assim.
Sim, vejam bem. E acrescentem. O dia nacional do idiota. O dia nacional do catador de pulgas. O dia nacional do ejaculador precoce. O dia nacional da leitora do Pantagruel. O dia nacional do Totoloto. O dia nacional da relva & do escalracho. O dia nacional do esgaramanteador de laustríbias. O dia nacional do dobrador de guardanapos. O dia nacional do agente de viagens. O dia nacional das bombinhas de cheiro. O dia nacional da mosca tsé-tsé. O dia nacional da magnólia & da japoneira, ou camélia, como entenderem. O dia nacional do que não fode nem sai de cima. O dia nacional da unha do dedo mindinho comprida. O dia nacional do frequentador da cervejaria da Trindade.
{Aceitam-se sugestões.}
||| Pós-escrito.
Não. O Plano Nacional de Leitura tem a ver com o Ministério da Educação. Não deve ter a ver com o Ministério da Cultura.
||| Notícias & leituras.

1. O livro de Luís Quintais, Franz Piechowski (Cotovia), para além da sua poesia -- uma parte da sua tese, leitura de uma excelente narrativa em torno da psiquiatria forense.
2. O livro O Coração dos Homens, de Hugo Gonçalves (Oficina do Livro), que merece atenção.
3. Curioso, o livro de Filomena Marona Beja, A Duração dos Crepúsculos (Dom Quixote) e a forma como fala da obra de Pedro Nunes (De Crepusculis), da matemática, da astronomia -- e de Virgínia Castro Almeida e suas paixões.
4. O desfile de indignações e a confirmação de que em Portugal não gostamos de debater mas de nos indignarmos. Em vez de ir à luta, saímos de campo sem discutir, mas indignados. A indignação é uma indústria em crescimento. É muito fácil e com custos baixos -- e resultados garantidos.
5. Uma passagem pelo Portal da Literatura, que começou agora.
6. Ao fim de um mês de acontecimentos em Timor, começamos agora a saber o que se passa. Mas o que se passou realmente só daqui a uns meses se saberá.
7. O folhetim do Ministério da Educação; outro desfile de indignações. A face mais visível do processo é a ideia de a avaliação dos professores poder depender da «ficha preenchida pelos pais». Pessoalmente acho isso um disparate.
8. Uma boa notícia sobre o machismo oficial dos tribunais e as decisões contra os pais/homens impedidos de ver filhos depois do divórcio. Não percebo porque razão os tribunais, num processo de divórcio, não começam por questionar o «direito» de as mães ficarem com os filhos, e não os pais. Não me venham com o direito ao corpo e o direito aos filhos.
9. A surpresa pela «surpresa» de Saramago ter dito o que disse a propósito do Plano Nacional de Leitura.
10. No Diário de Notícias de hoje, Maria José Nogueira Pinto menciona um documento dos professores espanhóis onde estão identificados os quatro mitos fundadores do atraso no ensino actual: «O mito de aprender fazendo; o mito da igualdade; o mito do professor amigo; o mito da educação sem memória.» Não conheço o documento, mas reconheço estes mitos na ideologia fundadora do discurso dos ilustres pedagogos portugueses.
||| Lamber sabão.
Li esta notícia através da Ana, e acho que é legítimo que mandemos esses cavalheiros lamber sabão. É uma maneira de dizer.







