03 dezembro, 2007

||| Os dias que começam.
1. Segundo o vice-ministro de Relações Exteriores da Venezuela, não se soube «vender o modelo socialista»: «Chávez tiene que entender que la reflexión es de todos. Él tiene que escuchar las reflexiones de nosotros. El Presidente necesita estar acompañado de gente que le diga las cosas. || En principio, que no se puede subestimar a la disidencia interna, el debate de ideas. Tiene que haber en el chavismo la necesaria reflexión para encontrar el camino de la crítica. Nos hace más daño el silencio hipócrita, que la crítica. || No fueron digeridos los contenidos, no supimos vender el modelo socialista. La gente asoció la propuesta a lo negativo. Se demostró que esta sociedad no está madura para el socialismo.»

2. Para Hugo Chávez, ainda é cedo para o socialismo do século XXI: «
Puede ser que no estamos maduros para asumir el bombardeo socialista (…) Antes de estar buscando culpables, tengo que decir que pude equivocarme en la selección del momento para hacer la propuesta. Eso pudiera ser. [...] Todavía no estamos a tiempo. Habrá que madurar más para construir el socialismo.»

2. Tomás Vasques, como sempre, acerta na questão venezuelana. Um pormenor a ter em conta, este.

3. Ter em atenção, de novo, esta reportagem de El Clarín.

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||| Venezuela, dia seguinte.
Sobre a Venezuela, nada de deitar foguetes. Os verdadeiros problemas vão começar agora; em primeiro lugar porque Chávez não vai desistir das reformas; em segundo lugar, porque haverá retaliações.
Por isso, a pergunta de Tomás Vasques tem toda a razão de ser. Só que esse «e agora?» não é puramente retórico; o que está em causa é verdadeiramente preocupante para os que vivem na Venezuela.

Ler este artigo do enviado de El Clarín a Caracas: «Un modelo com signos de desgaste.» E este.

Filipe Nunes Vicente escreve: «A resposta do povo, numa réstea de democracia formal, vai lançar a Venezuela numa guerra civil ou numa ditadura do proletariado (sim, essa mesmo, basta ler os clássicos) . Chávez deu o tom: "Vocês obtiveram uma vitória de Pirro e, nestas condições, eu não a celebraria."» Bem visto.

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25 novembro, 2007

||| Constitucionalistas venezuelanos. Perdão, espanhóis.









A edição do ABC de hoje mostra o rosto do principal constitucionalista de Hugo Chávez; trata-se de Roberto Viciano Pastor, professor de Direito Constitucional na Universidade de Valencia (titular da Cátedra Jean Monnet sobre Instituições Comunitárias), e ex-militante do grupo franquista Fuerza Nova. Além de trabalhar para Chávez e defender a auto-determinação do País Basco, Viciano é igualmente assessor de Evo Morales (Bolívia) e de Rafael Correa (Equador), tendo sido conselheiro do nacionalista peruano Ollanta Humala. É ele o pai do projecto da nova constituição a referendar no próximo dia 2 de Dezembro. Olé.
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20 novembro, 2007

||| Irrelevância, mas um sinal.
Jantem bem, fumem um charuto no final, estabeleçam lá o preço do petróleo, digam mal do rei, saudem o povo.
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||| Chávez em Lisboa.
A RCTV reportou perto de 100 agressões físicas a jornalistas à Organização dos Estados Americanos, a Globovisión mais de 70. || Um jornalista pode ser preso por publicar uma notícia se o visado se sentir ofendido. || A inflação acumulada nos últimos três anos levou a uma grande perda de poder de compra e porque é difícil arranjar produtos alimentares como leite, açúcar, farinha, frango. Arranja-se, mas é no mercado informal bem acima do preço regulado. || Desde que Hugo Chávez chegou ao poder, a produção da quinta maior potência petrolífera do mundo caiu 18 por cento e a descoberta de novas reservas desacelerou enquanto o preço do barril aumentou no mesmo período seis vezes. || Dossier do Público aqui.
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14 outubro, 2007

||| Um cantor pop que embaraça o chavismo.
Luis Acuña, o ministro da Educação do governo bolivariano (o mesmo que fechará as escolas que não apliquem o programa oficial de educação das crianças para o socialismo), informa que tem uma razão séria para impedir o concerto do cantor Alejandro Sanz em Caracas: «Decidimos que no va porque no va.» Com a república bolivariana não se brinca.
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09 outubro, 2007

||| Enfim, a virtude.
Contra a imoralidade, o álcool, o colesterol, o vício.
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03 outubro, 2007

||| A educação para o século XXI.
Na verdade, não convém diabolizar o presidente Hugo Chávez. Ele é um populista bom.
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01 outubro, 2007

||| O bom populista.









Este disco não vou perder. Compreendem-se agora as suas críticas a Barbie & Ken, ao Super-Homem, Tarzan, Homem-Aranha e Mandrake, bem como a intenção de não deixar entrar na Venezuela grupos musicais que sejam má nfluência para a juventude. O mandatario quer o espectáculo todo. Este populista não é uma desgraça.
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25 setembro, 2007

||| Oito horas.
O Aló, presidente deste último domingo, teve uma duração de oito horas, batendo o recorde anterior, de sete horas e quarenta e seis minutos. O próximo projecto de Chávez é o de atingir as dez horas consecutivas de emissão. Caray.
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25 agosto, 2007

||| Um homem bom, com uma história fantástica. 1924-2007.







Conheci Daniel Morais em Caracas e tenho pena de me ter contado apenas uma parte da sua história fantástica. Chegou à Venezuela em 1948, depois de uma passagem por Caxias e pelo Aljube (pertenceu ao Comité Central do MUD-Juvenil). Em Caracas, fundou uma empresa de mobiliário – foi responsável pela modernização do
design de mobiliário no país, o que lhe valeu o interesse da Sears americana, que acabou por adquirir-lhe a empresa. A «actividade empresarial» nunca o afastou da militância política; colaborou frequentemente com o Partido Socialista e com exilados que chegavam à Venezuela nos anos cinquenta e sessenta. Mas também nunca o afastou dos seus interesses culturais nem daquilo que, em Portugal, é olhado com desinteresse pelo cidadão comum e com cinismo pelos responsáveis políticos: o associativismo dos emigrantes. Foi graças a ele que se fundou (em 1958) e adquiriu uma dimensão tão relevante o Centro Português de Caracas (um edifício cuidado e gigantesco, à maneira de um verdadeiro ‘country club’, nos limites da cidade, em Macaracuay, rodeado de verde, colorido por piscinas e vidros limpos, com salas para aulas de português, biblioteca, restaurantes, consultórios médicos, enfermarias e ginásio). Fundou jornais, colaborou na rádio e era um repositório da memória viva da emigração portuguesa na região. Em 1985 criou o Centro Fernando Pessoa, agora Fundação Instituto Português de Cultura; desde 1989 que desempenhava as funções de adido cultural na embaixada portuguesa na Venezuela, e posso dizer que realizou um excelente trabalho. Era um homem distinto que gostei de conhecer e de ouvir. É pouco provável que esqueça um jantar memorável com aquele homem de 83 anos (e com outros amigos de Caracas que também não esquecerei) que bebia whisky cuidadosamente, diante de um dos seus médicos (outro homem notável), comendo com alegria (foi uma verdadeira aula da gastronomia), conversando, rindo e fazendo amigos. Vivia preocupado com o autoritarismo e o descalabro do regime venezuelano, e a crescente insanidade de Hugo Chávez, o que lhe valeu fortíssimas desilusões ao verificar como alguns portugueses ilustres se venderam ao tiranete (mas teve a coragem de lhes dizer isso pessoalmente – a gente que sempre ajudou ao longo da vida e que cometeu a deselegância de o ignorar agora). Recordo também um fim de tarde numa das mais belas livrarias de Caracas – as livrarias eram um dos seus lugares preferidos , a El Buscón, em que me guiou pelas estantes com a erudição de um apaixonado, de um aventureiro e de um homem justo; apreciei-lhe o sentido de humor, as leituras, o amor pelos livros e a impressão de que as desilusões da política (sobretudo diante da ingratidão de alguns dos seus antigos companheiros) não conseguiram apagar aquele rasgo de generosidade com que a comunidade portuguesa da Venezuela sempre mo descreveu, em vários testemunhos. Também não esquecerei a última conversa com Daniel Morais, pelo telefone, nem a promessa que lhe fiz de um dia voltar à Venezuela para escrever sobre aquelas histórias de heróis solitários perdidos entre o mar das Caraíbas e os Andes, em cidades onde se ouve aquela música que evoca amores distantes e destinos sem sentido; e sobre as últimas árvores de alguns dos bairros de Caracas, ou sobre essa gente que atravessou o Atlântico para fugir de Portugal. Ele seria uma figura de romance, certamente. Aliás, ele é uma figura de romance. O coração traiu-o mais uma vez. Morreu ontem em Caracas.

Foto: Caracas com o Cerro Ávila; a memória de Daniel Morais há-de gostar.

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||| Meia-hora.












Hugo Chávez vai mudar o fuso horário da Venezuela. Não uma hora, não duas, não três. Mas meia-hora. Segundo o ministro de Ciência e Tecnologia, Hector Navarro, a medida visa «uma distribuição mais justa do sol». Meia hora. Aprendam.
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22 agosto, 2007

||| Atum Chávez & Humala.










O Henrique Burnay descobriu esta preciosidade. Trata-se de latas de atum com os retratos de Chávez e Ollanta Humala (nacionalista e folclorista peruano apoiado por Chávez nas eleições, e derrotado). O governo de Caracas diz «que desconoce su origen» e atribui a patetice ao imperialismo americano. Duas semanas atrás, o governo venezuelano também desconhecia a origem de uma mala com 800 mil dólares «en efectivo» apreendida em Buenos Aires a um executivo da PDVSA (a estatal de petróleo venezuelana) e eventualmente destinada a financiar a campanha eleitoral da mulher de Kirchner; o transportista limitou-se a viajar com o staff governamental venezuelano e a partir com ele para o Uruguai. Caracas diz que a mala é uma manobra americana.
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15 agosto, 2007

||| Venezuela, reforma constitucional.










Não há limites para «o caminho para a felicidade». Com endereço certo, aí vai esta notícia de hoje:

«O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, apresenta nesta quarta-feira um projeto de emenda constitucional que permitirá que ele continue no poder até a morte. O projeto, que deve ser aprovado com folga no parlamento venezuelano, acaba com o limite para as reeleições do presidente. O benefício não será estendido aos governadores e aos prefeitos eleitos – só Chávez, reeleito no ano passado para um mandato que vai até 2012, poderá se perpetuar no poder.
De acordo com o ministro das Comunicações, Willian Lara, Chávez anunciará os termos do projeto na Assembléia Nacional, onde todos os 167 parlamentares apóiam seu governo. Chávez também tem controle da Suprema Corte, de toda a burocracia federal, das estatais de petróleo e infra-estrutura e de quase todos os governos estaduais – só dois têm oposicionistas no poder. Segundo Lara, o projeto de Chávez "garante ao povo o máximo de felicidade possível".»
Ou este despacho da Reuters: «Chávez, que conseguiu uma nova Constituição em 1999, iniciou seu novo período constitucional em 2007 com o anúncio da reforma, na qual assegura que eliminará os limites para a reeleição presidencial. Atualmente, são permitidos apenas dois mandatos consecutivos.»

O antigo Presidente da República, Mário Soares, escreve hoje no
Público. Mais uma vez defende o encerramento da RCTV por Hugo Chávez, não se esquecendo de invocar o seu percurso como combatente pela liberdade em Portugal. Infelizmente, esse estatuto não é bastante para autorizar as suas opiniões.

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08 agosto, 2007

||| Bibliotecas andinas.








Esta notícia, vinda directamente dos nossos correspondentes em Espanha, merece ser lida: «Venezuela's four-legged mobile libraries: A university in Venezuela is using a novel method to take books into remote communities and encourage people to read. As James Ingham reports, the scheme is proving a great success.»
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06 agosto, 2007

||| 7 horas, quarenta minutos.
O programa de Hugo Chávez ao domingo, o Alô Presidente, teve ontem a duração de sete horas e quarenta minutos. Parece que Fidel viu tudo, religiosamente.
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27 julho, 2007

||| Venezuela, os sinais.
O caso Raul Baduel e as críticas internas; o do hospital de Maracaibo; o Centro Integral Técnico-Productivo Socialista; notícias sobre a reforma permanente da constituição; o Ministério do Poder Popular para a Cultura atribui o Prémio Libertador ao Pensamento Crítico a Boaventura Sousa Santos.

Adenda: «
“Eu não vejo nem a curto nem a longo prazo a possibilidade de perder um processo eleitoral”, disse Escarrá [deputado governamental e advogado constitucional, que faz parte da comissão presidencial].

Ainda segundo o advogado, a reforma eliminará o limite de dois mandatos seguidos para a reeleição presidencial, “aprofundará o poder popular”, “promoverá a propriedade social sem reduzir a propriedade privada”, “implementará uma visão coletiva dos direitos fundamentais sem diminuir os direitos individuais”, além de uma reordenação territorial. Além de implementar o socialismo, a reforma irá abrir as portas para que Chávez, presidente da Venezuela desde Fevereiro de 1999, possa prolongar indefinidamente sua permanência no poder, desde que ganhe as eleições a cada seis anos e supere eventuais referendos revocatórios ao iniciar um novo mandato.

“A sociedade precisa neste momento de uma liderança”, justificou Escarrá. Desde Janeiro passado, Chávez foi investido com poderes para legislar de várias maneiras, por um período de 18 meses.»


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14 junho, 2007

||| La Guaira.
Deviam conhecer La Guaira, o principal porto venezuelano. A bem dizer, na zona das praias, refúgio de fim-de-semana para quem vem de Caracas. Há muitos anos, La Guaira era, também, o principal ponto de entrada de emigração. Um dos emigrantes que conheci, o Sr. Segismundo, veio dos Açores, de Ponta Delgada, nesses anos longínquos, creio que numa das derradeiras viagens do Santa Maria. É um homem bom e divertido. E imagino-o, micaelense (ainda hoje conserva o sotaque admirável), enfrentando os trópicos em La Guaira vestido como se estivesse no Inverno europeu, de sobretudo, ainda mal refeito dos dias passados no navio; fosse como fosse, era preciso encontrar trabalho. Ao fim de um dia em La Guaira, visitando as tabernas, cumprimentando os portugueses que ia encontrando, despedindo-se dos que regressavam, Segismundo (que mais tarde seria aquilo que nós chamamos «um próspero comerciante»), fez o seu primeiro negócio na Venezuela: vendeu o sobretudo. Recomeçou a vida.
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12 junho, 2007

||| Controle.
Junto a uma fila para inscrição no PSUV, o partido chavista, na Plaza Bolívar, em Caracas. Uma instalação sonora debita um discurso de horas contra os fora da lei, os estudantes «que não respeitam os símbolos pátrios». E o cartaz: «Es prohibido subirse o apoyarse en el pedestal ecuestre del padre de la patria.»
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||| Aeroportos.
Mário Soares diz que não vai aos EUA por causa do controle exagerado das fronteiras. Não dei por isso. Pelo contrário, na Venezuela, até chegar à porta de embarque os militares abriram a minha mala duas vezes; desde que entreguei o cartão de embarque e até chegar à porta do avião, a mala foi revistada por três vezes. E as perguntas no controle de passaporte, à chegada.
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