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Outdooors de qualidade, no 3 de 30. Marketing holístico, diz ela.
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Etiquetas: Coisas que vão ser proibidas
We have no more beginnings. {George Steiner}
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Outdooors de qualidade, no 3 de 30. Marketing holístico, diz ela.
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||| Pão.
Há dias, num restaurantezinho que frequento, fui informado de que vai passar a ser praticamente impossível continuar a receber aquele saboroso pão que vem (neste caso) do Alentejo. As autoridades vão querer, certamente, o pão plastificado ou cozido em forno eléctrico. Antigamente, nós queixávamo-nos «das leis de Bruxelas» que atacavam o nosso precioso queijo da Serra ou se recusavam a proteger a denominação de origem do melhor dos vinhos (o Porto), ou se metiam na nossa mesa sempre que queriam. Agora, o perigo é outro e está cá dentro: chama-se falta de bom-senso. Tenho uma lista das tabernas e tascas a visitar antes de serem remodeladas, e uma outra com fornecedores de pão cozido em forno de lenha. Ou, então, passaremos a fazer raides em Espanha, para manter o atrevimento.
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||| Gourmandises, 2.
É evidente que a existência de uma ética do «bom gourmand» levanta, só por si, alguns problemas. O Vasco é um «bom gourmand» e dedica o seu post a pessoas que têm discutido a relação entre os restaurantes e o tabaco (como eu próprio – além destes posts, ver esta série de três – o Eduardo Pitta, o Carlos Loureiro e o Daniel Oliveira). Eu acho que não sou um «bom gourmand» no sentido em que a gourmandise possa supor um estatuto absoluto da comida (seja lá o que isso for) e dos sentidos directamente «estimulados pela comida». No acto de beber, como no de comer, há uma natureza convivial que o gourmand pode dispensar em benefício do acto em si. Não eu. Posso comer sozinho, evidentemente – mas prefiro a mesa de amigos, o jantar em família, o almoço de domingo. Nesse sentido, estou disposto a abdicar de uma série de prerrogativas e exigências do «bom gourmand» em benefício dessa natureza convivial. Em última instância, o gourmand pode ser um «higienista», quase de certeza é um puro, certamente gosta de impor as suas regras. Em refeições desse género, que às vezes frequento por curiosidade ou dever, sigo as regras e fumo onde me é permitido, sem incomodar ninguém; caso contrário, sigo a minha vida.
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||| Gourmandises.
O Vasco alinha, no Memória Inventada, três excelentes argumentos sobre a ética do «bom gourmand» na sua relação com o tabaco: «1. O fumo interfere com o olfacto e o olfacto é um dos sentidos estimulados pela comida; 2. Nos restaurantes, as pessoas não terminam as refeições ao mesmo tempo; 3. O direito de fumar após as refeições interfere com o direito de não levar com fumo durante as refeições.» Diante desta lógica irrefutável, o Vasco supõe que há duas possibilidades «de compatibilizar estes dois direitos» (o de fumar e o de não levar com o fumo): «1) sincronizando as refeições, recorrendo a uma sineta e a um fiscal; 2) proibindo o fumo na sala e convidando as pessoas a um passeio até à rua no fim da refeição.»
Nessa circunstância, alinho perfeitamente em dar um passeio até à varanda, ao jardim, à rua ou a uma sala onde se possa fumar. Não acho escandaloso nem absurdo e não quero privar-me de uma boa refeição com o Vasco, aqui ou nos EUA. Acharia escandaloso, sim, que me proibissem de fumar onde quer que seja; mas não incomodarei pessoas que se incomodam com o fumo de um charuto. Et voilá.
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||| Sem querer ser indelicado.
Sem querer ser indelicado, informo que a prova incluía uma visita à carta de vinhos, que contava com 72 Portos de lei, não mencionando os 16 moscatéis genuínos e duas colheitas tardias do Douro. A lista de tintos favorecia a meditação, com cerca de 140 rótulos, de que se beberam muito poucos; os brancos novos eram formosíssimos (um verdadeiro festival de revelações do Douro) e havia seis rosés do Douro interior (naquela mancha que transita para a Beira). Ao longe (da bolsa e da alma, infelizmente), doze champanhes de Reims pulavam em robe-de-chambre (ah, sim, a mesa ficou pelo Cabriz, espumante a copo). Tudo para aplaudir a chamuça de alheira, os milhos de bacalhau com rodovalho ou os milhos com camarão e grelos (eu sou um apaixonado por milhos, a variante duriense e transmontana da polenta), lombinho de novilho maronês com isca de foie gras (daquele que é perseguido com ódio pelos vegetarianos, ecologistas e médicos do colesterol – havia também um papo d’anjo de foie gras de vinho do Porto e maçã, mas poupo-vos à descrição), outra peça de novilho do Alvão com creme de queijo da Serra, espargos verdes e um arroz de ervas e três tipos de cogumelos, um magret de pato com arroz de frutos secos e figos e – senhoras e senhores! – não resisto a mencionar a chamuça de queijo chèvre, gelado de mel e requeijão com doce de abóbora e amêndoa, além do crepe de leite-creme crocante com frutas e molho de framboesa (de queimar a alma) e de um portento, um vulcão, uma onda de devassidão concluída com a tarte de maçã com queijo de cabra e gelado de azeite. As ervas silvestres eram as campeãs da agricultura biológica, sim senhor, as da Eng.ª Graça, da melhor empresa do género, a Ervas Finas, de Vila Real – cheirar aquele manjericão é entrar na margem de um dos rios do paraíso (além dos seus chás de hissope, lúcia-lima, tomilho limão, hortelã pimenta e erva príncipe). Os Portos estavam finíssimos, ligeiramente refrescados. O Rui Paula é o culpado disto.
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||| Por outros motivos.
Zapatero irrita-me, e isto é absurdo. Irrita-me ele querer mudar Espanha, tornar Espanha «mais civilizada», a deitar-se a horas e a levantar-se para fazer jogging, a viver em ambientes saudáveis e livres do cheiro de Ducados e de canarinos (lembro-me sempre dos textos de Montalbán sobre o Condal n.º1, charuto de eleição de Pepe Carvalho). Irrita-me a legislação contra a siesta, aquele perfeccionismo intrometido na vida individual, que terá de passar a ser elegante, limpinha, nada promíscua, cheia de produtividade e de asseio. Mudar a Espanha é atraiçoar a nossa memória de bocadillos e de tortilla de bacallao y de patatas, de pesols a la catalana, de flamenquines asturianos, de conill a la brasa amb all i oli, de boquerones en vinagre, coquinas al ajillo, albóndigas con tomate ou cocido galego. Tenho uma grande nostalgia dessa Espanha incivilizada cheia de adeptos do Atlético e do Real, do Elche e do Ossasuna. Há uns meses, enquanto servia uns calamares fritos, uns pratinhos de pulpo de feira e umas empanadas quentes, a dona do Mesón de la Chispa (na Galiza, uma coisa que vem da minha adolescência, juntamente com o vinho branco de Monterrey) queixava-se de que agora toda a gente quer comida de fusão e que já não se encontravam apreciadores de lacón con grelos. Às vezes, quando vejo Zapatero sorrir ou revejo a comunicação ao país de Ignacio Buqueras, Presidente da Comisión Nacional de Horarios (anunciando que ia mudar os horários espanhóis para que os cidadãos vivessem mais felizes e menos angustiados), até dos velhos comboios da Renfe tenho saudades, daqueles que atravessavam Navarra a 80 kms/h, para não falar dos textos culinários de Puga y Parga (o autor de 56 Maneras de Guisar el Bacalao) ou das dispepsias de D. Álvaro Cunqueiro. Ou das tardes de café, copa y puro. Nós temos direito a essa Espanha incivilizada, quero lá saber da Espanha zapatera.
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||| Bons tempos. Harmonia familiar.
Bons tempos em que «as donas de casa» tinham listas de compras sensatas e compreensivas. Isto sim, era harmonia familiar. (Maria Cabral, em 1969, no anúncio ao brandy Macieira: «Até o brandy é ela quem escolhe... e bom!»)
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