08 janeiro, 2006

||| Por que é que são pirosos os escritores portugueses quando escrevem sobre sexo? [Actualizado.]


Na generalidade, são mesmo. Há recolhas hilariantes de textos sobre o assunto. Serpentes que tentam entrar no búzio, mulheres que se vergam ao peso de uma espingarda de carne, marialvismos, imagens imbecis, coisas que nem o saudoso Dr. Fritz Kahn (no seu inestimável A Nossa Vida Sexual) teria coragem de imaginar. Inês Pedrosa coligiu em tempos, no O Independente, uma antologia genial. As metáforas para o sexo são quase sempre perigosas, desadequadas, inadequadas, ridículas, além de fornecerem abundante informação sobre misérias de que não queremos saber. Há vários motivos. A rapaziada desses livros não tem grande tesão. Escreve sobre sexo mas não quer escrever sobre sexo; quer fazer literatura, dar um ar elevado à coisa -- que tem uma dimensão metafórica, certamente, mas isso é com cada leitor. Melhor inventariar, então, metáforas -- e é uma foleirice. Depois, há outro problema: se os personagens e as personagens não têm um índice mínimo de tesão, como é que hão-de interpretar diálogos e situações que valham a pena? No way. Evidentemente que há que contar com a «síndrome da bolinha no canto», informando os incautos que se está a falar de sexo -- e, então, a regra de «retroceder no último momento»: suavizar a linguagem, esvaziar as frases, pulverizar aquela trapalhada. Na verdade, os personagens e as personagens desses romances têm um grande pudor: não fodem; limitam-se a ser observados por um coleccionador de metáforas ou um manobrador do Dicionário de Sinónimos dos Fenianos do Porto. Há vastíssimas catadupas de sugestões, simulações, complexos, armadilhas, confusões -- mas, digamos, uma ripada bem dada é coisa rara, muito rara. Não que seja necessário. Mas quando se quer levar a caneta por esses lugares (salvo seja), então que seja com grande categoria.

Ver o Estado Civil e o Memória Inventada, via Glória Fácil. E também o Miniscente.

O Francisco Trigo de Abreu resumiu o texto de Inês Pedrosa aqui e aqui (obrigado pelo link, Francisco)

6 Comments:

Blogger António Viriato said...

Entre a subtileza de um fino, aristocrático, Mourão Ferreira, com as suas espadas vivificantes em olímpicos amplexos e as cruas marteladas de um Luís Pacheco, distribuídas a esmo, em catres esfacelados, haverá certamente uma técnica narrativa mais adequada. De resto, trata-se de matéria delicada, que não está acessível a qualquer operário das letras. Nem mesmo os nossos irmãos brasileiros, com toda a sua imaginação desatada, toda a sua natural desinibição, ampliada pelos tórridos calores tropicais, conseguem sair-se lá muito bem...

12:56 da manhã  
Blogger Nuno said...

A verdade é que o Francisco José Viegas já levou uns quantos ao seu 'Livro Aberto'. Ossos do ofício ou... falta de tesão?

1:20 da tarde  
Blogger Carlos said...

Há pior, muito pior. Nos tempos em que decidi ler uns livros do Paulo Coelho (dois: "Brida" e "As Valquírias"; não aguentei mais), quase morri de rir com uma descrição de sexo no "Brida".

Mas, pela positiva, e a título de exemplo, refiro Pedro Juan Gutiérrez e Patrícia Melo. Deve ser do calor...

5:56 da tarde  
Blogger Girolamo Savonarola said...

E por isso que eu gosto do Bukowski...

6:24 da tarde  
Blogger FTA said...

Sempre às ordens (e o Longe de Manaus já não passa desta semana)...

11:15 da manhã  
Blogger Harry Lime said...

Francisco Curate,

O Bukowski em termos de sexo é do melhor que há. No "Women" ela leva a coisa até aos limites. As cenas de sexo nele são realistas e duras e por isso têm o humor (ou a falta dele) que normalmente caracteriza o sexo real.

E ninguém o pode acusar de falta de tesão :))

7:10 da tarde  

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