26 dezembro, 2005

||| Balanço, 2.










Um dos debates era sobre «a alma». Ora, «os estudos literários» não deviam ter nada a ver com «a alma»; a sua matéria eram os textos, as estruturas, as recorrências & repetições, as viagens alucinantes à «gramática profunda» do texto, as contribuições dos mestres (não, não Barthes, sobre quem havia desconfiança depois de S/Z)*. Interrogação pura, literatura transformada em «matéria fanérica». Lembro-me que, uma tarde, a meio de uma aula, Eduardo Prado Coelho mencionou «a alma». Fez-se um silêncio (nessa altura ele ainda não tinha começado o mestrado sobre «pós-estruturalismo»). Um de nós, que tinha devorado Les Mots et les Choses e um pacote que ia de Mukarovsky a Levin, de Lotman a Riffaterre, durante o primeiro semestre, deixou passar o momento de incómodo e perguntou: «Sim? E o que é a alma? Não tem nada a ver com a literatura.»

* - Sim: nessa altura Kristeva ainda não se tinha dedicado a profissões mais lucrativas e Todorov ainda era um mestre de régua & esquadro.

2 Comments:

Blogger jt.rossana said...

Por favor continue as suas recordações de "teoria da literatura". Lembram-me as minhas e são materia divertida.

1:23 da tarde  
Blogger Sílvia said...

Eu fiz a parte teórica dessa cadeira com o Professor Victor Aguiar e Silva, o autor da "Bíblia" da Teoria da Literatura. Infelizmente, as aulas práticas não eram com ele, mas com uma assistente que se limitava a ditar, com todos os pontos e vírgulas, as páginas da referida "Teoria da Literatura".
As suas aulas parecem ter sido mais estimulantes. Conte mais.

4:33 da tarde  

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