16 outubro, 2005

||| Nobel.
Percebo a polémica e a discussão sobre o Nobel atribuído a Pinter. Todos os anos acontece. Ele tem ideias políticas. Ele próprio reconhece que «his longstanding political activism may have played a role in the decision to award him the 2005 Nobel Prize for Literature». Saramago tinha ideias políticas conhecidas, como Elfriede Jelinek ou Dario Fo. A lista é infindável. Talvez não se tivessem conhecido tanto as posições políticas de Claude Simon, Gao Xingjian, Derek Walcott, Kenzaburo Oe ou Kawabata. É evidente há muito tempo (desde 1953 com mais clareza, data da atribuição do prémio a Churchill) que há uma marca política do Nobel. No caso da literatura, é mais do que evidente. Muitas vezes, o Nobel dá voz ou agradece o papel desempenhado por escritores; estão nesse caso nomes muito diversos, desde Vicente Aleixandre ou Brodsky, Elytis ou Pasternak. Cito estes nomes porque são autores de que gosto, independentemente das suas opções políticas. Mas Saramago não foi apenas escolhido pelas suas ideias políticas, tal como o não foram Isaac Bashevis Singer ou Czeslaw Milosz. É interessante reunir o vasto conjunto de teorias da conspiração sobre a atribuição do Nobel. Certamente, pelo que se lê e se sabe, há uma inclinação política na atribuição do Nobel, o que o desvaloriza crescentemente. Mas também em matéria literária ele perde interesse e valor; só assim se justifica que tenha sido atribuído a Jelinek e não a Philip Roth ou Hugo Claus; que tenha ido parar às mãos de Dario Fo e não a Mailer, Cees Noteboom ou Vargas Llosa; e que tenha sido atribuído a Harry Martinson e não a Jorge Luis Borges. Essa é a questão mais importante.

P.S. - É evidente que seria importante saber se Vargas Llosa, Roth ou Borges foram alguma vez excluídos por razões políticas, mas isso é outra conversa.

6 Comments:

Anonymous Ana Leonor said...

A polítca, como não podia deixar de ser, sempre no meio a atrapalhar, a turvar a vista e a distrair do essencial que: é a qualidade.
No caso do prémio Nobel da literatura (já que é a esse que aqui se refere e não a outro) é triste vê-lo perder-se assim quando devia ser atribuído a quem de direito, quantos não o teriam merecido e o viram passar ao largo por motivos políticos?
É triste...

4:43 da tarde  
Blogger Ernesto said...

é.
mais um capítulo na história universal da infâmia.

8:46 da tarde  
Anonymous PC said...

Os únicos concursos em que acredito são os da Santa Casa.

12:12 da tarde  
Blogger JSA said...

Fica só uma questão: qual a probabilidade de todos os autores que, teoricamente, mereceriam o Nobel da Literatura o receberem? Parece-me óbvio que há muitos autores que teriam defensores na sua corrida ao Nobel e que nunca o atingiriam, assim como haverá autores (necessariamente menos) que o terão ganho e continuarão a ser contestados muito para lá da sua morte. E tudo isto sem recorrer às suas opções políticas.

É discutível dizer que Borges não ganhou o prémio pelas suas opções políticas? Provavelmente. Terá Neruda, por oposição, ganho graças às suas? Possíve, muito possível. E Joyce? E Pessoa? Será que foram preteridos porque tinham opções políticas que não eram do gosto da Academia? Ou terá sido porque a sua escrita não tinha ainda vencido? Ou porque não eram conhecidos o suficiente fora do seu país? Será que não existem outros critérios para além da política? Será necessário que quando determinado autor vença se venha denegrir a atribuição do prémio por critérios políticos?

Fica um nome: Gabriel García Marquez. Marcadamente de esquerda, defensor de Fidel Castro e de outras opções, no mínimo, discutíveis. Curiosamente o seu Nobel nunca vem contestado. Apenas o de Saramago, Fo ou Neruda. Terá a Academia acertado naquele caso?...

12:08 da manhã  
Blogger CM said...

Graham Green, sem Nobel, Ignóbil?

5:49 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Philip Roth merece o Nobel? Pois sim...

12:59 da tarde  

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