04 maio, 2007

Fumo, 3.
Há uma razão impossível de rebater, nos argumentos anti-tabagistas: que o fumo do tabaco incomoda, que o seu aroma é incómodo, que a sua asma se ressente. Reconheço os argumentos de Fernanda Câncio; são imbatíveis. Quem se sente incomodado com o fumo do tabaco, sente-se incomodado com o fumo do tabaco. Poderíamos tergiversar acerca da história dos aromas ou dos cheiros nos últimos dois séculos, ou acerca da história da purificação do ar em ambientes fechados (ambas as coisas existem), mas a verdade é que quem se sente incomodado com o fumo do tabaco, sente-se incomodado com o fumo do tabaco. Nenhum fumador pode incomodar quem se sente incomodado com o fumo do tabaco. É, por princípio, um valor civilizacional; lembro-me sempre de gloriosos fumadores cheios de catarro que pediam autorização para fumar à roda de senhoras.
Mas essa ideia do «incómodo com o fumo do tabaco» levar-nos-ia a outros «incómodos». A discussão não teria fim. Mas é o único argumento civilizacional que reconheço.

PS - Apenas lamento que os amigos fumadores da Fernanda não sejam bem educados.

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Fumo, 1.
A discussão sobre a lei anti-tabaco não é de natureza política. Há, em certas posições, uma fortíssima dose de irracionalidade. Os anti-tabagistas vêem nesta matéria, não sem alguma razão, uma luta entre a vida e a morte. Para eles, o tabaco leva à morte; não fumar, por seu lado, está a um passo da vida eterna (para os mais radicais) ou de uma vida saudável (no que têm razã). O problema começa quando o tabaco é visto como um índice de empobrecimento civilizacional, como acontece com a maioria dos militantes anti-tabagistas americanos: para estes, fumar tabaco é vício de «latinos», chineses, pobres, alcoólicos, gente desprezível.

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08 março, 2007

||| Proibir, de novo.





É uma reacção desproporcionada mas justa.


Já agora, comentários ao post sobre mais proibições e a este sobre o Todo Poderoso:

«Duvido bastante que, de facto, aches comparável a proibição do fumo em restaurantes e a pseudo-proibição das cadeias de fast food. E duvido também que não tenhas, já recebido mails a manifestar o mesmo que agora digo, mas, pelo sim, pelo não, cá vai: o fumo nos restaurantes interfere não só com quem fuma (activamente), mas também com quem está à volta; e isso não acontece com as cadeias de fast food...» [Cristina Silva]
«Tem razão quanto ao Todo Poderoso. Às vezes eu já tinha (tenho) dificuldades com o Todo Poderoso propriamente dito, aquele que é suposto ser Todo Misericordioso e amar-nos incondicionalmente e dar uns palpites sobre como deveríamos viver a vida, sem se meterem picuinhices, o que só lhe fica bem, que tenho dificuldade em gerir o "olhar" deste último feito de inércia, mesquinhice, invejazinhas, dedos apontados e má gestão dos seus recursos, recursos esses que saem dos nossos bolsos... Estou feliz, no entanto, porque vou deixar de ter fumadoras no cabeleireiro! Só é pena que tenha que ser assim, mas como dizem os sábios: temos o que merecemos.» [Joana C. D.]

«Hás-de engasgar-te com essa merda do charuto. O mundo ficava mais limpo sem fumadores e sem panascas intelectuais como tu que têm a mania de serem snobs.» [alguém que assina Algermais]

«Não me parece que se justifique essa comparação entre o fumo do tabaco e as cadeias de fast-food, mas há, de verdade, alguma semelhança. O problema é que está provadíssimo que o uso do tabaco é prejudicial ao próprio e aos outros. Quanto ao resto, que refere do post Todo Poderoso estou completamente de acordo.» [Rui Martins]

12 abril, 2006

||| Fumar, não fumar.
Estranho alguns protestos sobre a lei do tabaco; quanto ao desejo de controle sobre as nossas vidas, já estava tudo escrito antes: eles querem cuidar de nós. O projecto não me parece desproporcionado, no conjunto. Apenas idiota em alguns pontos essenciais, como a política em relação aos restaurantes e discotecas -- neste campo, aliás, é um espelho da moda legislativa portuguesa: eles gostavam de ter outra realidade, sobre a qual fazem leis, independentemente de serem ou não adequadas.
O que a lei está é a provocar uma moda de notícias, que caem em avalanche nas televisões, sobre os malefícios do tabaco. Temos tido oportunidade de ouvir textos «jornalísticos» de uma moralidade inquietante e escandalizada, tipo tia velha confrontada com os horrores do mundo. No jornalismo português não há moralismo que não tenha fiéis seguidores. Há uma vasta legião de mini-evangelizadores disponíveis para nos educar enquanto faz notícias. Protejam-se.

20 novembro, 2007

||| Soneto para os amigos no dia dos meus 62 anos.

Se aqui cheguei foi graças a vocês
Que me tiraram as pedras do caminho
E me deram resposta aos múltiplos porquês
Onde o medo sorrateiro faz o ninho

E por isso aqui estou passados os sessenta
Pejado de tabaco e vinho tinto
A olhar tranquilo o banco onde se senta
Esse juiz supremo a que não minto

Fui jovem e sonhei, errei, caí
Mas sempre soube que o rumo que escolhi
Só podia ser livre e verdadeiro

Não sei se consegui mas estou seguro
Que tentei construir o meu futuro
Pra que nele coubesse o mundo inteiro


[MAV]

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15 outubro, 2007

|| Frankfurt. Relatos da Buchmesse.






APEL/UEP –
As duas associações estão cada vez mais próximas da fusão, mas o caminho é tortuoso e anda minado aqui e ali. Depois do acordo histórico que permitiu (com mediação da Casa Fernando Pessoa) a realização conjunta da Feira do Livro de Lisboa, houve também o fim de processos judiciais. O caminho está aberto e é importante que continue. Este ano, o espaço era quase comum. Bom sinal.

Campo das Letras – A Campo das Letras, que acaba de publicar a nova edição de A Grande Arte, de Rubem Fonseca, vai lançar a obra de Schiller em português. Um acontecimento.

Catalunha Era o país-tema. Houve bastante polémica acerca dos autores convidados; mas, mais provinciana do que a decisão do comité organizador ao não convidar autores que tivessem “traído” – escrevendo em castelhano – só o provincianismo de quem pensa que isso é importante para a Buchmesse. O stand catalão era muito minimal, moderno, atraente, sem informação relevante.

Clancy Martin – O The New York Times aponta-o como exemplo das pobres novidades da Feira: é um pacato professor de filosofia, especialista em Nietzsche e Kierkegaard, e autor de um romance de estreia, How to Sell.

Comboio – Perdemos, todos, um grande momento: o instante em que Manuel Alberto Valente desce do comboio na Hauptbahnhof, em Frankfurt, depois de atravessar a Europa. É uma viagem histórica, e que traduz o medo de voar de Manuel Valente. Este ano, foi uma das ausências mais notadas.

Convidados – Os próximos convidados da Buchmesse são a Turquia e a China. Depois de criticado e ameaçado no seu país (por causa da questão arménia e da questão curda), Orhan Pamuk tinha lugar de destaque no pavilhão oficial turco; para o lançamento da feira do próximo ano, Pamuk vinha a calhar. Curiosamente, um dos debates da Buchmesse andava à volta da censura na Turquia e na China. Ah, o negócio. [Por falar em China, o novo e mais do que promissor negócio do Fodor’s Guide to Beijing: 2008 Olympics Edition, que venderá bastante, esteve na base de um acordo entre a Random House e a Beijing Publishing House, que o co-produzirão; a HarperCollins já tinha assinado um acordo para publicar, com a editora chinesa Blue Sky Publishing, o Travel Around China.]

Doris Lessing – Rumores davam conta de que a Presença tinha adquirido os direitos de toda a obra de Doris Lessing logo a seguir ao anúncio do Nobel. A agência de Lessing registou filas à porta; editores que tinham direitos “cativados” mas não pagos desde os anos sessenta, pediam renovações de contrato. Houve, recentemente, casos de corrida a direitos derivados do Nobel da Literatura – distante, o de Toni Morrison; mais recente, o de Orhan Pamuk. Quase todos os outros, na última década, ou não suscitaram interesse por aí além (Jelinek, Fo ou Pinter) ou já estavam tradicionalmente garantidos (Naipaul, Coetzee, Xingjian). Jane Friedman, a CEO da HarperCollins, que este ano publicou The Cleft, estava radiante; mas, curiosamente, não tinha livros de Lessing para oferecer ou, sequer, mostrar no stand.

Download – O mercado do livro conta cada vez mais com essa palavra: “Download.” Fazer download de um livro: 10% do mercado digital alemão já se faz com downloads.

Festa Random House/Bertelsmann – Antigamente, havia várias festas. Os anos de crise interromperam o curso de cocktails, apresentações, big cocktail parties, e jantares de grande parte da edição internacional. O gigante Bertelsmann/Direct Group/Random House (com o Círculo de Leitores português), até porque está em casa, continua a organizar a sua festa. Há cerca de quinze anos passou do Grand Ballroom do Intercontinental para o Grand Arabella (na Konrad Adenauer Straße). Duas mil pessoas que se acotovelam e reencontram. Há os incondicionais e os clássicos (entre eles, muitos portugueses); há os desinteressados e os que não lhe dão grande importância (“mas é necessário ir”). Lembro-me dos tempos em que, no Intercontinental, Reinhard Möhn recebia os convidados um a um – e não era permitido levar jeans. Havia menos gente, era mais elitista, mas comia-se francamente mais à vontade e não havia tantos espanhóis a falar tão alto. Este ano, os portugueses constituíam um bom grupo. A “fonte de chocolate” (uma enorme fondue de chocolate em cascata permanente) continua a ser um “must”. Encontrei o Lorenzo, da Nuova Frontiera, em plena rua, que me perguntou: “Está lá a fonte? Venho por isso.” Os americanos continuam a invadir a sala de sushi e a julgar que é tudo deles; paulatinamente são expulsos e reconduzidos à mesa de frutas; a fila dos grelhados era enorme. Este ano, a cerveja era Paulaner pilsener e o vinho era italiano. Fiquei reduzido a espetadas de frango (com João Rodrigues e Jordi Nadal, que tinha acabado de lançar a Plataforma Editorial).

Frankfurter Hof – O hotel clássico da Buchmesse, cuja esplanada estava cheia até depois das duas da manhã – fumadores resistiam ao frio da Alemanha. Mas o frio não afastava ninguém. Depois da meia-noite consegue reunir a maior concentração de agentes literários por metro quadrado. As agentes de Doris Lessing festejavam na escadaria da esplanada. Nenhum jornalista consegue boas histórias da Feira sem pelo menos duas a três horas de “investigação” no Frankfurter Hof. É o maior centro de rumores. Este ano não foi excepção nem faltaram rumores. Meia dúzia deles, muito picantes. Mas as salas de reunião do hotel, essas, estavam todas reservadas desde Maio, sobretudo por agentes americanos e ingleses, que preferem manter um dia, pelo menos, de contactos reservados antes de aparecer na Buchmesse.

Frankfurtfatigue Uma nova doença que se manifesta todos os anos em Outubro.

Fumar – A lei anti-tabaco entrou em vigor na Alemanha, e já é proibido fumar no interior da Buchmesse. Mas as portas mantêm-se abertas para a rua e havia duas zonas de fumadores nos limites (uma delas estava junto do press centre e outra perto do pavilhão alemão). Dois países criaram off-shores (a designação foi de Carlos da Veiga Ferreira, naturalmente): Portugal e a Argentina. Em ambas as áreas, havia um cantinho – muito visitado por gente de outras latitudes – para cigarrilhas (cada vez com mais “praticantes”), cachimbos (o de Zeferino Coelho) e cigarros. Na festa do Grand Arabella, havia uma sala de fumo onde não se conseguia ver nada a cinco metros de distância. Zeferino Coelho, sentado, comentava que se tratava de um cenário literário que lhe lembrava a lei seca americana. Centenas de pessoas passaram por lá; era a única sala do Arabella para onde os criados estavam autorizados a transportar bebidas; tudo o resto era self-service. No Frankfurter Hof, a rush-hour, que habitualmente terminava à meia-noite, foi prolongada diariamente até às duas; na sexta-feira, estendeu-se até às 3h00 – mas na esplanada. Houve gente previdente que trouxe sobretudos e anoraques para Frankfurt: fumar, na rua.

Grupos – Não sei bem se foi uma novidade actuante, a existência de três novos grupos de edição portuguesa (o de Pais do Amaral, que agrupa a Asa, a Caminho, a Texto e a Gaialivro; o da Oficina do Livro com a capital de risco Explorer e Invest, a que acabou de juntar-se a Teorema; e o da Bertelsmann/Direct Group, com o Círculo de Leitores, Bertrand, Temas e Debates e Quetzal). Havia curiosidade. E muita urbanidade, cavalheirismo: editores de um e de outro grupo conversavam nos corredores. Mas a ninguém escaparam as “nuances”, os segredos bem guardados e as alianças estratégicas. Novidades a seguir.

Ilídio Matos – O único agente literário português mantinha a sua presença clássica. É mais do que uma figura – uma referência para a história da edição. O nosso Grande Tio. Se há pessoas cuja autobiografia ensinaria muito sobre a edição portuguesa (como a de Figueiredo Magalhães, por exemplo – o editor da velha Ulisseia), a de Ilídio Matos seria uma delas.

José Rodrigues dos Santos – Curiosidade à sua volta? Nem tanto. Mas o jornalista foi visto aqui e ali, em negociações. O novo livro vai ser pré-publicado pelo Diário de Notícias. E o autor está na categoria dos “protagonistas”, o que é uma boleia para as livrarias. Façam contas.

Keith Richards – O guitarrista dos Rolling Stones vai estrear-se como romancista. Quem deu a novidade foi o agente literário Ed Victor; exactamente o mesmo que, este ano, já tinha vendido a autobiografia de Richards à Little, Brown por um preço que rondava os sete milhões de dólares.

PFD - Foi curioso ver Pat Kavanagh, a agente literária e mulher de Julian Barnes, entrar no Frankfurter Hof pela porta das traseiras, mas muito, muito vista e comentada; ela é uma das mais respeitadas agentes britânicas (e de bons autores, naturalmente), que tinha acabado de abandonar os quadros da PFD, a maior agência do país, depois de a CSS ter tomado conta da empresa. Pat Kavanagh leva consigo autores como Ruth Rendell ou Robert Harris; mas ainda não se sabe o que acontece a nomes como Nick Hornby, Alain de Botton, John Mortimer ou Margaret Drabble (para além de actrizes como Kate Winslett). A nova patroa da PFD é Caroline Mitchell, que vem da agência William Morris (e casada com o antigo patrão da Faber & Faber). Cerca de metade dos quadros da PFD ameaçaram demitir-se; um quarto deles (23) já saiu. E Mitchell não apareceu na Buchmesse.

Roger Moore – O agente Lesley Pollinger anunciou o livro de Roger Moore, My Word is My Bond; a título de curiosidade, apenas, para mencionar que se trata de uma venda de 3 milhões de euros. Essa era a base mínima para negociar.

Salada de batata – A salada de batata do pub da Feira mantém as suas qualidades: deixa-se sempre a meio. Mas as salsichas melhoraram nos últimos anos. Curiosamente, no meio de tanto puritanismo, a Buchmesse ainda não transigiu em matéria de cerveja de pressão: não há alkoholfrei bier de pressão nos bares e cafés do recinto.

Zita Seabra – O Correio da Manhã deu-a como candidata à liderança do grupo parlamentar do PSD mas ela estava na Feira a negociar a edição inglesa de Foi Assim. Ainda não tem título; havia uma sugestão, a de It’s All, Folks, mas não deve pegar. Um dos livros de que Zita Seabra comprou os direitos foi Prolétaires de Tous les Pays, Excusez-moi, de Amandine Regamey.

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31 agosto, 2007

||| Rudolf.






O João Miranda refere Rudolf Steiner neste post. Não comento o assunto (a agricultura biológica), mas lembro-me de uma visita a Dornach, perto de Basileia, onde se comemora a enorme sapiência de Rudolf Steiner, um homem que sabia de tudo e onde estão instalados os Goetheanum, edifícios tremendos que também comemoram a sua vasta sapiência. Rudolf Steiner sabia de tudo: de linguística a agricultura biológica, de filosofia (vagamente) a fisiologia (bastante), de esoterismo a literatura (Goethe), de economia a política, de pedagogia (com as escolas Waldorf) a ciência em geral (sobretudo decalcando tudo o que Goethe escrevia). Sobre este «sistema total», a antroposofia, li algumas coisas na época, no princípio dos anos oitenta. Tudo estava ordenado, tudo se orientava para «princípios unificadores», não havia pormenor escatológico que não estivesse explicado no interior de um «conhecimento» que não deixava nada de fora. Dornach, a aldeia, assinalava Goethe de forma obsessiva e as representações integrais do Fausto demoravam semanas de aborrecimento intenso. Os seguidores de Rudolf Steiner passavam pelas ruas, vestidos de lã escura, com gorros a esconder a palidez da pele; comiam-se bastantes cereais e frutos secos, perseguiam-se o álcool e o tabaco, as pessoas riam com cuidado; havia grupos de trabalho sobre agricultura biológica e o sistema digestivo ao lado de aulas de «ciência espiritual», a que assistiam muitas fãs de Madame Blavatsky e Annie Besant. As «origens intelectuais» de Rudolf Steiner eram interessantes (ficaram conhecidos o seu apoio a Dreyfus e as suas leituras iniciais de Nietzsche, que lhe forneceu a gramática e a euforia), mas o resultado era uma cosmogonia que acabava por reduzir as ciências à tríade «pedagogia-medicina-agricultura» e à sua mistura com uma «ciência espiritual» que procurava tranquilizar-nos com Goethe no original. Quando deixei Dornach, pela estrada que me levava para longe de Basileia, deixei para trás uma grandee perigosa tristeza; eu não sabia, até aí, que se podia detestar a vida real com uma convicção tão intensa. Mas cheia de palavras.
[FJV]

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15 agosto, 2007

||| Gourmandises, 2.
É evidente que a existência de uma ética do «bom gourmand» levanta, só por si, alguns problemas. O Vasco é um «bom gourmand» e dedica o seu post a pessoas que têm discutido a relação entre os restaurantes e o tabaco (como eu próprio – além destes posts, ver esta série de três – o Eduardo Pitta, o Carlos Loureiro e o Daniel Oliveira). Eu acho que não sou um «bom gourmand» no sentido em que a gourmandise possa supor um estatuto absoluto da comida (seja lá o que isso for) e dos sentidos directamente «estimulados pela comida». No acto de beber, como no de comer, há uma natureza convivial que o gourmand pode dispensar em benefício do acto em si. Não eu. Posso comer sozinho, evidentemente – mas prefiro a mesa de amigos, o jantar em família, o almoço de domingo. Nesse sentido, estou disposto a abdicar de uma série de prerrogativas e exigências do «bom gourmand» em benefício dessa natureza convivial. Em última instância, o gourmand pode ser um «higienista», quase de certeza é um puro, certamente gosta de impor as suas regras. Em refeições desse género, que às vezes frequento por curiosidade ou dever, sigo as regras e fumo onde me é permitido, sem incomodar ninguém; caso contrário, sigo a minha vida.
[FJV]

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||| Gourmandises.
O Vasco alinha, no Memória Inventada, três excelentes argumentos sobre a ética do «bom gourmand» na sua relação com o tabaco: «1. O fumo interfere com o olfacto e o olfacto é um dos sentidos estimulados pela comida; 2. Nos restaurantes, as pessoas não terminam as refeições ao mesmo tempo; 3. O direito de fumar após as refeições interfere com o direito de não levar com fumo durante as refeições.» Diante desta lógica irrefutável, o Vasco supõe que há duas possibilidades «de compatibilizar estes dois direitos» (o de fumar e o de não levar com o fumo): «1) sincronizando as refeições, recorrendo a uma sineta e a um fiscal; 2) proibindo o fumo na sala e convidando as pessoas a um passeio até à rua no fim da refeição.»
Nessa circunstância, alinho perfeitamente em dar um passeio até à varanda, ao jardim, à rua ou a uma sala onde se possa fumar. Não acho escandaloso nem absurdo e não quero privar-me de uma boa refeição com o Vasco, aqui ou nos EUA. Acharia escandaloso, sim, que me proibissem de fumar onde quer que seja; mas não incomodarei pessoas que se incomodam com o fumo de um charuto. Et voilá.
[FJV]

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29 junho, 2007

||| O tanso fiscal.








As
aventuras de um tanso fiscal, um muito recomendável texto de Pinho Cardão no Quarta República (em duas partes, I e II): ao fim do dia, «perdido o sono, abre a televisão e vê os habituais economistas professores, os clássicos comentaristas doutores e os membros de um qualquer governo ad-hoc, mas todos professores doutores, a dizer que os impostos não podem baixar e que assim é que estão bem!...» Sabemos que impostos pagamos verdadeiramente? Faça as contas aqui e aqui, e saiba como pagar, diariamente, taxas diversas aos Serviços Municipalizados, se beber água ou tomar banho («uma quota de serviço, uma tarifa de tratamento, uma taxa de saneamento, fixa, uma taxa de saneamento, variável e o IVA a 5%. As taxas significam 2/3 e a água 1/3 da factura»), tarifa de conservação de saneamento, imposto sobre os combustíveis, «Taxas Diversas», impostos sobre impostos que pagou aquando da compra da viatura, taxa de licenciamento e da taxa sobre o valor de adjudicação de obras públicas, imposto sobre o tabaco, taxa sobre o controlo metrológico e de qualidade, imposto de selo («seja na ida ao notário, numa escritura pública, num processo de habilitações de herdeiros, numa procuração, numa renda, numa operação bancária, ao levantar cinco cheques no Multibanco»), emolumento sobre qualquer situação desconhecida, imposto sobre o álcool e bebidas alcoólicas, taxa de justiça, taxa do registo civil, taxa de registo predial, taxa de registo comercial, taxa moderadora, taxa de comercialização e abate de gados, taxa sobre operações de bolsa, propinas, taxa vinícola, taxa de portos, taxas de portagem, taxa florestal, taxas de fiscalização de actividades comerciais e industriais, IVA diversos, emolumentos consulares, selo do carro, Sisa/IMI, Imposto de Selo, IRS, IRC, Taxa de Exploração DGGE (Direcção Geral de Geologia e Energia), Contribuição audiovisual, Taxa Municipal dos Direitos de Passagem, etc.
[FJV]

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24 maio, 2007

||| Assim se legisla mais um pouco.







Os deputados da Nação, empenhados, acham que a lei do Tabaco deve ser aplicada de «modo faseado», pelo que «as regras entrarão imediatamente em vigor em espaços como hospitais, estabelecimentos de ensino, transportes públicos ou serviços e organismos da Administração Pública» (ficam para depois as «instalações» onde é necessário fazer obras) . Ah, como nós gostamos de leis! Na verdade, a interdição de fumar em «hospitais, estabelecimentos de ensino, transportes públicos» e recintos fechados já estava consagrada em lei anterior, sensata e adoptada sem necessidade de ressentimentos ou de discursos sobre ética e moral. Mas, quando se trata de proibir, insisto, gostamos de fazer upgrade.

PS - Mas há uma proposta sobre os direitos individuais.
[FJV]

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22 maio, 2007

||| Proibir.
Já dei a minha opinião sobre a legislação anti-tabaco. Mas é sempre reconfortante saber que, em matéria de proibicionismo, somos os mais aplicados da Europa. Nada como uma boa proibição para levantar a moral da Pátria.
[FJV]

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07 maio, 2007

||| Limpeza.
Contei há dias o episódio: há uns meses, pediram-me que fornecesse uma fotografia de Fernando Pessoa. Uma das atribuições da Casa Fernando Pessoa também é essa. Forneci, vaidoso, com um cartão de cumprimentos. Veio devolvida, com a anotação de que a fotografia (belíssima) apresenta Fernando Pessoa a fumar; e que o ideal seria limpar o cigarro da fotografia. Estaline fazia isso com frequência. Hitler proibira o tabaco há muito. Tal como Edgar J. Hoover. Eu não vou limpar o cigarro da foto de Pessoa, como fizeram às de Malraux ou Camus.
Curioso o post do Sérgio Aires, um dia destes, com as declarações de Chico Buarque sobre a limpeza estalinista que fizeram a Vinicius de Moraes:

«O que me desagrada, principalmente, é o puritanismo, a hipo­crisia. Evidentemente, eu não sou a favor do cigarro, não sou a favor do álcool. Gosto de tomar vinho e fumo mas não vou dizer que o cigarro faz bem. Agora, essa vigilância constante sobre as pessoas me desagrada. No outro dia, entrei numa livraria, havia uma grande foto — enorme — de Vinicius de Moraes e a mão dele estava numa posição muito estranha. Eu pensei: muito es­tranha, essa mão do Vinicius. Depois, fui perceber que havia um copo na mão dele que foi retirado por photoshop ou como se cha­ma esse negócio. Retiraram o copo da mão de Vinicius de Mo­raes. Como se retiravam, no estalinismo, figuras que caíam em desgraça. Amputaram o copo das mãos dele. Isso é a cara desse tipo de comportamento vigente.»
Entretanto, o Nuno Vargas trouxe esta imagem de Santiago do Chile.

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04 maio, 2007

Fumo, 2.
Por exemplo, a ideia de drogas legais, o de substâncias narcóticas ou tóxicas legais. O tabaco e o álcool são, desse ponto de vista, drogas legais. O editor Joaquim Vital alertava-me, há uns tempos, para a próxima ideia de campanha pela purificação do mundo: rótulos com a indicação «O álcool mata» nas garrafas de vinho ou de qualquer bebida alcoólica. Não vejo por que razão não existem ainda esses rótulos.

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30 março, 2007

||| Fora do top ten.







A The Lancet elabora o top ten das substâncias mais perigosas: 1. heroína, 2. cocaína, 3. barbitúricos, 4. metadona, 5. álcool, 6. ketamina (anestésico), 7. benzodiazepina (ansiolíticos), 8. anfetaminas, 9. tabaco, 10. buprenorfina.
Portanto, a marijuana está em 11.º, se é que não sabiam. Praticamente fora de perigo.

07 março, 2007

||| Ah, Todo Poderoso.










Eu tinha insistido: está aí o cartão único, depois vem o cruzamento de dados, depois vem a vigilância alimentar, o controle do nosso tabaco, a suspeita sobre a nossa saúde, a inveja dos vizinhos, o controle do peso, os procedimentos administrativos sobre a obesidade e a vida saudável. Que era um exagerado. Que ninguém ia cruzar dados. Que não havia acesso.
Pois aqui está demonstrado, pelo João Gonçalves. E não, não é por causa de José Sócrates; não é por causa deste primeiro-ministro. É por causa dele, do Todo Poderoso, do Estado-Todo-Poderoso. E da gente que por lá anda.

PS - Já agora, ver este texto de Vasco Pulido Valente.

25 fevereiro, 2007

||| Notas do outro lado,1.













1. Washington debaixo de neve fica ainda mais interessante. Falo por Georgetown, claro. O nevão amplificou o silêncio da manhã de domingo. Tudo é pretexto para regressar à Barnes & Noble. Ontem à noite, o The Little Book of Plagiarism, de Richard A. Posner, a nova edição do guia de cervejas de Michael Jackson (são quinhentas!) e, por recomendação do Nuno Mota Pinto, Guns, Germs and Steel. The Fates of Human Societies, de Jared Diamond, uma leitura fantástica. Levo já a meio, lido e dobrado entre papéis, o The Conservative Soul, de Andrew Sullivan. Hoje foram revistas, as habituais. Um saco de livros no meio da neve.
2. Brunch no Peacock Cafe depois de um mini-corona fumado no meio da rua, a ver cair a neve dos beirais. Os americanos falam muito alto, o que, às vezes, é saudável. Mesmo enquanto lêem o jornal ao balcão, são barulhentos. Ementa saudável e recomendada pelos dietistas de todas as religiões e tendências médicas: calamares com molho picante e, depois, corned beef hash com ovos escalfados em molho holandês; para beber, água e Black Label. E um café expresso notável, muito bom, um ristretto perfeito. Depois, voltar à rua para fumar e andar entre gente que faz o mesmo.
3. As lojas de tabaco são lugares muito confortáveis rodeadas de um mundo hostil. Há alguns anos tinha estado nesta mesma loja de charutos – continua confortável. Compro dois Partagas churchill, maduros (dominicanos, claro), dois robustos e um small black robusto (sou adepto da tradição da Connecticut leaf). As pessoas que entram têm um ar saudável e parecem preparadas para um bom charuto de domingo.
4. Na melhor loja gourmet de Washington, a libra de queijo da Serra amanteigado custa 36 dólares. E os sabonetes de banho Ach. Britto custam $16,92; os mais pequenos «apenas» $6,92. É o sucesso português fora de portas; são os mais caros de toda a loja. Parece que Madonna usa os produtos Ach. Britto. Imagino-a a espremer a bisnaga de creme de barbear Musgo Real.
5. Caminhada do centro até ao campus da universidade. Um rapaz, em calções, esfrega neve pelas pernas; deve ser uma cerimónia ritual.

08 fevereiro, 2007

||| Necessidades elementares.









O Presidente da República assinala a «necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vida sedentários». Percebe-se o que está em causa, diminuir o consumo de álcool entre miúdos ou nas estradas, fomentar caminhadas nos jardins e bosques, tudo isso. O mayor de Nova Iorque também quer uma cidade mais saudável e proibiu o tabaco, o colesterol e os fritos, prometendo combater a obesidade, o foie gras e o bacalhau salgado (no restaurante de Bourdain & Meireles). Já em outros locais, a vontade de uma vida saudável leva a outros excessos. Nunca sei o que é melhor. Se a liberdade, se o comando da nossa saúde por políticos que elegemos. A saúde pública é um domínio vasto que frequentemente entra nos caminhos da moral & dos costumes. Os queijos com alto teor de gordura serão perseguidos, da Serra da Estrela a São Jorge e ao Pico. Um dia haverá fiscais vigiando o teor de sal no bacalhau. As casas de família irão, com o tempo, transformar-se em antros de pecado – aí podemos comer pastéis de massa tenra, pataniscas, bacalao al pil pil, feijoadas e compotas preparadas com açúcar em vez de adoçante (havendo até quem fume um charuto no final, mais perigoso do que uma erva simplória, muito bem admitida socialmente). Um dia, mais tarde, entrarão em nossa casa e desaprovarão as migas gatas de bacalhau ou o feijão no forno. Na escola, os institutos da saúde perguntarão subtilmente às crianças se os pais têm por hábito comer fritos e barrar o pão com manteiga, essa substância perigosa. Justificarão. Justificarão sempre. Querem o nosso bem. Nunca sei o que é melhor.

24 outubro, 2006

||| Fumar em Buenos Aires.
Em Buenos Aires, agora que chegou o Verão, eles driblam a lei anti-tabaco como podem.

11 agosto, 2006

||| Leituras.
Esperando que o J.M.F. não me processe, aqui estão dois textos a ler na edição de hoje do Público: o de Vasco Pulido Valente sobre os acontecimentos de Londres, e o de José Miguel Júdice sobre os malefícios do tabaco.