|||Lendo o que escreves.
Alguém lê o que escreves, triste consolação,
pálida alegria, caindo a tarde sobre as coisas.
A vida perfeita vem do outro lado do mar,
como uma frase que nunca foi dita, amável
claridade que os seus olhos nunca atormentam;
não têm fundo. A vida perfeita é breve.
Cada palavra é um resumo — e, em cada palavra,
quanto deixas de teu?, quanto delas se perde
nas florestas? O silêncio protege-te de ti mesmo,
guarda os dias para os grandes passeios
entre as fronteiras da terra distante, onde a luz
te espera; guarda qualquer coisa nesse espaço
em branco do teu coração. Quantas noites
o que escreveste se perdeu sem saberes, afinal,
que para ela escrevias? Tentação quando a tua
natureza cede e a vida regressa para que tu fales,
alguma vez falando de amor, quase sem respirar.
Que não esteja nos teus braços, mas que se aproxime,
como o calor da ventania, os passos da areia, a sede
de outra sede igual. Como saberias que o amor existe
longe da sua pele? Se escreves, sobre isso escreves,
e dizes o nome dos planetas, das feridas. Esperas
que venha esse sinal e te chame enquanto a noite
não sabe de que lado está, de que lado dorme.
A Origem das Espécies
We have no more beginnings. {George Steiner}






5 Comments:
enquanto a noite não te sabe tu vais descobrindo o dia....
excelente primeiro dia de janeiro de 2006.
a.b.r.a.ç.o.
Gostei... Ah, e também gostei de o ver hoje na repetição da Revolta dos Pastéis de Nata... Quando puder, dê um salto até ao meu...
Abraço e bom ano
Bonito o poema, bela a imagem, será decerto uma paisagem de além mar, de muito além mas podia ser ali nas Furnas.
Gostei tb muito do programa com os editores da Fenda e da Cavalo de Ferro, gente que admiramos sem conhecer.
Bem haja.
Que a noite lhe seja leve.
Obrigado a todos
Este poema chamou-me bastante a atenção. Se é do Francisco, dou-lhe os meus parabéns. Se não for, paciência. É bom na mesma :-)
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